sexta-feira, 23 de abril de 2010

PRÉDICAS DE UM MONÁRQUICO, AOS REPUBLICANOS PATRIOTAS

Caros adversários de hoje:

São numerosos nas nossas fileiras os antigos republicanos que, mercê da sua recta intenção, da sua culta inteligência e de séria meditação nas realidades da vida contemporânea, se converteram à ideologia monárquica.

E abundam muito mais, os filhos já esclarecidos, de republicanos ainda iludidos.

Isto bastante nos desvanece, mas não podemos sentir completa satisfação enquanto notarmos no campo contrário, a presença de muitos idealistas e honestos, de tantos «homens bons» cujo lugar deveria, sem equívoco, ser do lado de cá.

Só o respeito humano e certos preconceitos constituem obstáculo a que muitos destes reconheçam publicamente as instituições monárquicas, como as únicas capazes de conciliar os interesses da pessoa com os interesses da /colectividade.

Sei muito bem, senhores, (é aos idealistas, aos dignos, que me dirijo, e não ao refugo da sociedade, ou aos «profiteurs» da política) que um dos principais motivos da vossa adesão aos ideais republicanos foi a sincera afeição que alimentais pela liberdade humana.

Nobre ideal esse, perante o qual me curvo sem constrangimento. Não que eu reverencie a Liberdade «para tudo»; mas apenas porque amo também as liberdades, filhas da independência outorgada por Deus a cada homem, e que nenhuma outra criatura tem direito de violar ou de limitar sem justo motivo.

Dessas liberdades, dessa independência, também eu sou dedicado adepto, e por isso compreendo a vossa paixão política.

Nada, porém, na Monarquia se opõe a essa inclinação da vossa mocidade, pois é, pelo contrário nos regimes republicanos, que, nascida a antinomia — Liberdade, Autoridade, esta se tem ido cada vez mais a impor, em detrimento daquela.

E à medida que por esse mundo têm ido sendo depostas as Monarquias, sob o pretexto falso de constituírem obstáculo, à liberdade, têm-lhes sucedido a prazo mais ou menos longo os regimes de autoridade ilegítima — consequência fatal dos abusos de uma Liberdade ilícita. Pode dizer-se que hoje em dia, na generalidade das Repúblicas, há muito menos liberdade do que na generalidade das Monarquias actuais e do que havia nas Monarquias predecessoras daquelas.

E até noutras repúblicas onde ainda os cidadãos usufruem certos direitos, estes vão nuns casos, sendo progressivamente restringidos a pretexto de «defesa da Liberdade», e noutros casos paradoxalmente considerados excessivos pela Autoridade, que espreita, carrancuda, a ocasião para se instalar e dominar em absoluto.

Na Monarquia autêntica, popular, baseada nas organizações naturais da Família e das Profissões, não há nem pode haver conflito entre Autoridade e Liberdade, porque sendo aquela naturalmente adquirida, não tem que ir buscar às limitações desta as possibi¬lidades de existir e de se exercer.

Assim caros adversários de hoje, o tão sedutor ideal da Liberdade que vos conduziu para a república, acabará por vos orientar, e muito logicamente agora, para a Monarquia autêntica, depois da necessária rectificação de rumo.

Sei muito bem que, além desta simpática paixão vós estais dominados por alguns preconceitos, dos quais o principal é considerardes os princípios monárquicos logradouro exclusivo de uma casta dominada pela nobreza — pela fidalgagem, como dizeis. É um preconceito autêntico que nada pode justificar e que a lição dos factos presentes e a da História, fácil e constantemente contradizem.

Olhai: Quem vos está falando não tem nas suas veias uma só gota do chamado sangue azul. Mas tem sangue, não capilé. É plebeu autêntico, por ambos os ramos da sua progenitura. E, contudo, nera mesmo vós, por certo, duvidais do seu monarquismo, e de que é capaz de dar lições nesta matéria a muitos titulares cheios de prosápia mas destituídos de nobreza.

E como ele, quantos mais têm graças a Deus e à sua inteligência, ascendido neste campo a cargos directivos, sem se sentirem deslocados no ineio dos autênticos nobres, que em igualdade de condições os consideram e são por eles considerados!

Não sabeis vós, pela História que o Povo foi sempre o terceiro braço da Realeza, em paralelo com o Clero e com! a Nobreza? E nunca fez má figura, nem foi desconsiderado senão depois do advento das Repúblicas.

Outro preconceito a que estais agarrados é o da vontade do povo». E considerais que ela se manifesta autenticamente, deitando cada um, num caixote ou numa vasilha — como dizia Eça de Queirós — um papel onde está impresso o nome de um homem que ele desconhece, proposto para o exercício de funções que ele ignora. Ora nós, também queremos que o povo manifeste a sua vontade mas consideramos que essa manifestação só será consciente e real quando cada um, deitar no tal recipiente um papel onde estiver escrito o nome duma pessoa que ele conheça, indicado para o exercício de funções que não lhe sejam estranhas.

E isto só poderá efectuar-se em relação à massa populacional no âmbito da administração local e no do exercício profissional. Não é tão simples? E disto deriva que nós somos os maiores respeitadores da von¬tade do povo. Tão respeitadores que até só lhe per¬guntamos aquilo a que ele saberá responder, para não o lançarmos no ridículo, como fazem as repúblicas.

E somos tão respeitadores que uma vez manifestada legitimamente a sua vontade, nunca a Monarquia procurou iludi-la, quer pela força quer pela astúcia.

São do conhecimento geral, as prerrogativas do juiz do Povo, :da Casa dos Vinte e Quatro, e os forais e liberdades outorgadas aos municípios, essas verdadeiras repúblicas locais, como sempre foram designadas.

Recapitulando, dir-vos-ei que o vosso amor à liberdade, tanto como é o vosso respeito pela vontade do povo, e o reconhecimento de que não somos uma casta, vos devem passar a orientar para a Monarquia.

Mas, há ainda ‘um óbice, é verdade. A vossa mística anda ligada a dois símbolos: um hino e uma bandeira. E se a inteligência é livre, o sentimento é quase sempre escravo. E em vós ele nutre-se claramente dos símbolos referidos.

Também isso não será obstáculo, caros adversários de hoje, porque a tal respeito, podemos afoitamente negociar, uma vez que a única idéia que julgo assente nesta matéria ‘é a de que os símbolos da Pátria na Monarquia futura não poderão sob aspecto algum, representar o triunfo de um partido sobre o outro, mas sim a vitória da Nação sobre todos os elementos da Anti-Nação. Não deverão humilhar nenhum português nem recordar lutas civis, pois convirá que só sintetizem vitórias e heroísmo — coisas de que a nossa História está cheia a transbordar.

Irmãos portugueses. Nesta altura já não quero tratar-vos por adversários, porque sinto que estamos reconciliados. Não ignorais que chegámos a uma encruzilhada onde não podemos deter-nos por muito tempo. É preciso caminhar, e, por isso, escolher o caminho.

Dentro do vosso republicanismo dois deles podeis tomar. Ou vos agarrais a cadáveres confundindo silêncio com a ordem e morte comi a disciplina optando por cesarismos destruidores da personalidade e ani-quiladores das vossas idéias de liberdade e de respeito pela vontade do povo; ou vos lançais abertamente no caminho oposto que vos conduzirá, ilusòriamente, ao mesmo termo de viagem, tomando estertor por afir¬mação de vida e considerando todos os atropelos como exercício pleno da liberdade.

É este o dilema terrível em que por todo o inundo se debatem os regimens republicanos depois de duas guerras mundiais que sustentaram.

Mas dentro do vosso patriotismo um só caminho se vos depara — o’da Monarquia. Aí vereis autoridade sem opressão, liberdades sem” desordem, respeito sincero pela vontade da nação, igualdade de todos perante a lei. Entre o vosso republicanismo e o vosso patriotismo tem que se travar duro combate porque sois homens de consciência. Decidi-vos com presteza, pois cada hora que vamos vivendo é mais grave do que a anterior.

Se eu não tivesse a certeza de que o vosso patriotismo acabará por vencer o vosso republicanismo, não vos teria dirigido uma só palavra que fosse.

(Fonte : Prédicas de um Monárquico, Jacinto Ferreira 1957)
Blogue "Causa Monárquica"

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