quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A LUTA CONTRA A TUBERCULOSE EM PORTUGAL DURANTE AS TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX (1)



A medicina portuguesa, entre os finais do século XIX e, praticamente, meados da década de 40 do seguinte, sem quaisquer recursos farmacológicos para combater a tuberculose, voltava-se para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção, não só através da criação de centros hospitalares e sanatoriais, bem como da implementação de regras e estratégias sociais conducentes a melhorar as condições de vida, alimentação e higiene física e mental das populações.

Uma comunidade com hábitos saudáveis dificilmente poderá vir a ser um alvo da doença.

Não obstante o velho conhecimento, mais do que assente, entre os praticantes de medicina hipocrático-galénica e, provavelmente, até já entre os Egípcios Faraónicos, de que o clima de altitude é favorável à cura da tuberculose, só em 1854 Francisco António Barral publicaria o primeiro trabalho científico português “sobre o clima do Funchal e a sua influência no tratamento da tuberculose” e Brehmer, em 1856, viria a divulgar os seus estudos de carácter científico, sobre os benefícios do arejamento, do repouso em estabelecimentos fechados e da super-alimentação no tratamento da tuberculose.2 Assim, a partir de meados do século XIX, os sanatórios viriam a assumir um importante papel na luta anti-tuberculosa e, um pouco por todo o País, vão sendo construídos e postos a funcionar.

Na Ilha da Madeira, cujo clima era reconhecido, desde o século XVIII, como privilegiado para a cura da tuberculose, a Rainha D. Amélia, Ex-Imperatriz do Brasil, mandaria construir, em 1853, um hospital-sanatório, em memória a sua filha, a Princesa D. Maria Amélia, falecida no mesmo ano na cidade do Funchal, com 22 anos de idade, ceifada pela tísica, “ao que se julga, contagiada por seu pai, D. Pedro IV3, morto também pela doença. Em 1862, o hospital Princesa D. Maria Amélia, “destinado a tratar doentes afectados de tísica e outras moléstias pulmonares crónicas, que ainda possam ter esperança de melhora4, recebia já os seus primeiros doentes.

Na sequência de duas expedições à Serra da Estrela, realizadas entre 1881 e 1883, destinadas a estudar “as condições da mesma, com o objectivo de fundar nela sanatórios para tratamento da tuberculose pulmonar, à semelhança dos da Suíça”, viria a ser lançado um livro, prefaciado pelo Dr. Sousa Martins. Já nessa altura reconhecido como um clínico distinto e uma prestigiosa figura da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, as suas afirmações, realçando a importância das condições climatéricas e da altitude na cura da tuberculose, viriam a ter um enorme impacto, não só, sobre a opinião pública, como a nível político e sanitário. Deste modo, muito antes de ali surgirem as primeiras infra-estruturas oficiais, isto é, os hospitais-sanatórios, começaram a afluir à Guarda e à Serra da Estrela inúmeros tuberculosos, em busca dos referidos benefícios do clima. Esta enorme concentração de indivíduos afectados pela “tísica”, hospedados em casas particulares e nas poucas unidades hoteleiras da zona levaria a que doentes e não doentes tivessem que ficar alojados nos mesmos sítios, situação algo complicada, em termos epidemiológicos. Em 1894, as autoridades responsáveis pela higiene sanitária acabariam por impor como obrigatória a declaração de entrada de doentes em hotéis, bem como a desinfecção das casas onde os mesmos pernoitassem. Na mesma data, criava-se em Lisboa o 1º Posto de desinfecção e instituía-se como obrigatória a notificação de doenças infecciosas e, em particular, da tuberculose. Esta medida, porém, não teve, de início, grandes efeitos práticos, uma vez que a declaração só se verificava após a morte do doente.5 Por temor do estigma social, por razões morais ou por incúria, esta situação era frequente e, como tal, a tuberculose, enquanto ia ceifando uns, ia lançando as suas “sementes” noutros.

Um Pavilhão doSanatório da Guarda

Preocupada com a grave situação epidemiológica que o País atravessava, a Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa “inaugurou então uma campanha de propaganda de combate à tuberculose, a que Miguel Bombarda, em a Medicina Contemporânea, deu a maior expansão, alvitrando-se a criação de uma liga que se propusesse a envidar todos os esforços nessa luta e ao estudo do problema da hospitalização dos tísicos.6 Desta iniciativa resultaria, finalmente, a Liga Nacional contra Tuberculose. 

Constituída por várias comissões, com sedes nas principais cidades do País, a L.N.T. viria a preparar e a realizar diversos congressos entre 1901 e 1907, com vista a debater o problema da tuberculose e a definir as melhores estratégias curativas e, sobretudo, profilácticas para o seu combate.7 Neste esforço, incluíram-se a formação e especialização de clínicos portugueses no estrangeiro na área da pneumo-tisiologia e a criação (construção ou adaptação) de centros hospitalares, especialmente localizados em climas marítimos e de altitude.8

Os dois “flagelos” de Portugal:Tuberculose (bacilo de Koch)
e Jesuitismo (“bacilo de Loyolla“)

Em 1897, no concelho de Oeiras, devido a esforços de Tomás Ribeiro, então ministro, e do Dr. José Joaquim de Almeida, médico deste município, fizeram-se as obras necessárias de adaptação no “forte de Junqueiro”, em Carcavelos, e instalaram-se ali crianças escrofulosas e linfáticas, com vista a poderem recuperar das suas lesões neste clima marítimo. Depois da sua inauguração oficial, em 1902, esta unidade hospitalar destinada apenas a crianças do sexo masculino, viria a ser ampliada com dois novos pavilhões, transformando-se num sanatório, agora, com capacidade para receber cerca de uma centena de pessoas, mulheres e crianças.9 Em 1898, por iniciativa do Professor Silva Amado, o Hospital de Arroios, que viria também a ser conhecido como Hospital Rainha D. Amélia, acabaria por tornar-se, depois de algumas obras de beneficiações e melhoramentos, numa unidade apenas destinada a tuberculosos.10

No final do século XIX a tuberculose assumia, assim, graves proporções em Portugal. Perante a aparente indiferença dos responsáveis pela política de Saúde Nacional, o Professor Moreira Júnior, reconhecido Parlamentarista, foi certamente uma das primeiras vozes que se ouviram, em 1899, ousando “chamar a atenção do governo” para a “situação cruciante” desencadeada pela doença e para a urgente necessidade de se tomarem as adequadas medidas preventivas.

Segundo Álvaro Barros Rosa, esta chamada de atenção no Parlamento teria sido o empurrão final para o arranque da Assistência Nacional aos Tuberculosos (A.N.T.), a qual reflectiria a vontade e as ideias, o projecto, em suma, da Rainha D. Amélia.

A Rainha D. Amélia, fundadora daAssistência Nacional aos Tuberculosos

A Rainha, em 11.Jun.1899, na Sala das Sessões do Conselho de Estado do Ministério do Reino, por si presidida, apresentou então um conjunto de intenções que se poderão resumir em quatro pontos:

1º- Construir hospitais marítimos.
2º- Fundar sanatórios em clima de montanha e de altitude.
3º- Estabelecer em todas as capitais de distrito institutos que serviriam, não só, para o estudo e tratamento da tísica, mas também de socorro aos doentes [mais aligeirados, que ainda não carecem de isolamento e] que têm de trabalhar para sustentar as suas famílias.
4º- Criar os hospitais para tísicos, destinados aos incuráveis.

Nesta sessão foram estabelecidas diversas estratégias consideradas fundamentais para se poderem atingir os elevados objectivos, quer imediatos, quer a médio prazo, da A.N.T., que viriam a concretizar-se através de várias iniciativas:11

- Criação de um subsídio anual de 20.000$00 assumido pelo Governo.
- Subsídios, obrigatoriamente suportados pelas Câmaras Municipais, incluídos nos respectivos orçamentos.
- Utilização dos fundos correspondentes a “1% das quotas dos sócios das sociedades ou associações de recreio onde se realizassem jogos” e do “produto das multas que por leis ou regulamentos fossem destinadas a esse fim”.
- Isenção de direitos alfandegários sobre os materiais fabricados no estrangeiro, destinados ao serviço de dispensários, sanatórios e hospitais.
- Angariação de fundos resultantes de quermesses, peditórios e subscrições efectuados junto de emigrantes portugueses no estrangeiro, de leitores de vários jornais publicados em Portugal, de instituições bancárias, bem como de doações e quantias obtidas através da cooperação de regedores, de párocos e de paroquianos.
- Recolha de dádivas e receitas provenientes da realização de festas e espectáculos.

Este movimento, exigindo uma grande responsabilidade e um enorme sentido de gestão, face à complexidade de acções a desenvolver e a controlar, em todo o País, implicava, naturalmente, a formação de uma “Comissão de Propaganda”, bem como de subcomissões com a missão de se poderem levar a efeito as múltiplas estratégias definidas a nível da Comissão Central. São então nomeadas as referidas subcomissões:

- Dos Zeladores, destinada a velar pelos interesses da Sociedade em todos os seus campos de acção, presidida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa
- Das Festas, com a missão de promover e realizar festas remuneradas, cujas receitas seriam destinadas à Sociedade, sob a presidência do Conde de Sabugosa.
- Das Quetes, responsável pela realização de campanhas de esmolas e donativos para a Sociedade, sob a presidência do Arcebispo de Mitilene.
- De Estudo e Estatística, com o objectivo de recolha de dados, informações e análise da situação da tuberculose no País e do seu desenvolvimento, em termos de morbilidade e mortalidade, sob a direcção do Dr. Manuel António Moreira.
- De Profilaxia, necessariamente voltada para o estudo e implementação das necessárias medidas higiénicas e sanitárias destinadas ao combate da tuberculose, presidida pelo Dr. Ricardo Jorge.
- De Divulgação, concentrando todo o trabalho de publicidade e alerta social contra a doença, bem como a difusão dos respectivos intuitos e programas sanitários da A.N.T. nessa luta, sob a orientação e direcção do Dr. Curry Cabral.12

Este esforço nacional, porém, não iria receber aplausos de todos os portugueses, e a prova disso fica bem patente na carta do conhecido escritor e jornalista Alfredo Gallis, que transcrevemos na íntegra:

“Il.mo e Ex.mo Sr.Em resposta ao convite de V. Ex.ª tenho a declarar o seguinte: Aplaudindo e considerando no mais alto, a filantrópica iniciativa de Sua Majestade, a Rainha D. Amélia, para proteger os tuberculosos, em carta aberta escrevi no “Tempo” um artigo dirigido à mesma Augusta Senhora, explicando que essa simpática e benemérita campanha é contrariada nas fontes originárias do mal pelo arquiestúpido procedimento dos nossos governos, carregando de impostos impossíveis as classes pobres, como são do domínio público o facto dos pobres vendedores da feira da ladra, dos feirantes do Lumiar, dos miseráveis donos dos quiosques do capilé, e tudo o mais que se segue. Assim, quanto maiores dificuldades cercarem a vida dos pobres não os deixando alimentar regularmente, respirarem ar de outras moradias e proverem até ao asseio do corpo, mais tuberculosos hão-de haver. O Estado desmancha com a garra esquerda o que a carinhosa Rainha de Portugal constrói com a mão direita. Podem-se curar os tuberculosos que de novo adoecerão da mesma moléstia, apenas regressem à sua vida usual até morrerem.
O meu bom senso diz-me que em frente d’um fisco rapace e cruel, que nada vê e nada atende porque o que quer é dinheiro para gastar em inconfessáveis despesas, não há esforço que sirva, nem caridade que preste. É mesmo muito de crer que os tuberculosos ainda sejam obrigados a selarem o jeito na Receita Eventual.
Ex.mos Sr.es, conheço o meu país e, pior ainda, a política e os políticos do mesmo.
Sou pobre e trabalho sem descanso. Uma quota anual seria um sacrifício dado de má vontade, porque revolta que o Estado não pense que o pobre tem direito a alimentar-se e a ganhar a vida.
N’estes termos não quero inscrever-me porque não tenho fé nos resultados da alevantada ideia de Sua Majestade, que bem podia dizer ao Governo que nem só os políticos comem carne e precisam de se alimentar na razão directa do que trabalham.
E pedindo desculpa desta rude franqueza
Sou de V. Ex.ª At.to, V.er e Admirador
(a) Alfredo Gallis13

Mas não seria esta nem outras formas de resistência ou de protesto ocorridos durante a campanha em torno da luta contra a tuberculose que fariam oscilar o ânimo e a determinação da Rainha e de todos quantos se envolveram, com a mesma convicção, na concretização dos elevados objectivos previstos neste grande projecto nacional. Na verdade, muitas das acções ventiladas e implementadas na sequência da reunião de 11 de Junho de 1899 haviam sido, desde há muito, delineadas e ponderadas pela Rainha, sempre atenta a todos os pareceres e informações especializados sobre estas matérias e, sobretudo, sensível às opiniões das grandes autoridades médicas do seu tempo. O conteúdo da sua correspondência, em particular, as cartas que enviou à Senhora D. Maria Emília Brandão Palha, em 1889, constituem a prova indesmentível dessa preocupação. Na carta datada de 26.Jul.1889, a Rainha dava conta das suas reflexões sobre a possibilidade de contágio existente entre anémicos e tuberculosos, internados nos mesmos “hospícios” e questionava-se sobre as soluções para o problema. Procurando orientar as suas decisões o melhor possível, não dispensou os conselhos e as abalizadas opiniões de dois grandes nomes da medicina desse tempo, os Professores Francisco Oliveira Feijão e António Lancastre, sobre o assunto, e dá conta, detalhadamente, dessas diligências na correspondência trocada com D. Maria Emília Brandão Palha. A escolha do local, segundo “a opinião formal de Feijão é que, para os tísicos ou tuberculosos, somente um asilo construído nas alturas pode ter alguma utilidade. É preciso, no entanto, que tais alturas reunam as condições requeridas. Para quem é anémico, debilitado, predisposto de qualquer maneira à tísica, as alturas deixam de ser indispensáveis. É preciso escolher um local que seja suficientemente longe de uma grande cidade, de preferência mais elevado do que anichado num vale e, condição indispensável, que os edifícios se situem no meio de jardins ou de bosques de pinheiros. Caneças ou o bosque de pinheiros situado por detrás do Estoril parecem bem escolhidos”.14

A posição de António Lancastre, sobre o local apropriado para a construção de hospitais destinados a tuberculosos, seria também objecto da sua reflexão, conforme se depreende pelas palavras que dirige a D. Emília Palha: “A opinião de Lancastre é que as alturas são favoráveis a certos tuberculosos, mas não a todos. Em todo o caso, para o primeiro grupo, [os tuberculisáveis] elas não são necessárias. Para este grupo, o ar do mar é umas das melhores condições. Nós podemos, pois, estabelecer facilmente o nosso hospital nas imediações de Lisboa. A influência directa do ar do mar deixa de fazer efeito a mais de trezentos metros da costa. Lancastre acha o Pinhal da Guia, situado próximo de Cascais, preferível em relação a todos os outros pontos. – Crê-se não haver qualquer inconveniente para os habitantes de Cascais. – O Pinhal da Guia reúne todas as condições desejáveis; além, disso, e se o futuro no lo permitiruma parte do segundo grupo de tuberculosos poderia vir a ser ali tratado eficazmente, num outro estabelecimento próximo do primeiro”.15 Lancastre alerta também a Rainha para o facto de haver pormenores de construção a que se tem, obrigatoriamente, que atender: os materiais usados nas enfermarias devem, preferencialmente, construídos em ferro (seguindo o sistema de Tollet), pois deste modo permitir-se-á uma melhor desinfecção destes locais; por outro lado, em cada uma delas não deverão existir mais de doze doentes; finalmente, deve instalar-se um número de chaminés adequado, já que, para além de poderem funcionar como aquecimento, têm também a vantagem de assegurar uma boa ventilação. Depois de confidenciar, pormenorizadamente, com D. Emília Palha, as opiniões de Feijão e Lancastre sobre o assunto, a Rainha resume as respostas dos dois clínicos em 7 pontos que considera condições fundamentais a ter em conta:

“1. Um hospital, para tuberculisáveis, raparigas ou crianças.
2. O contágio existe, indiscutivelmente, entre os tísicos e os predispostos: nem todas as tuberculoses são contagiosas; não há nenhum contágio entre os candidatos à tísica e os outros doentes.
3. Uma enfermaria absolutamente separada para os tuberculisáveis que se tornaram tísicos depois da sua admissão no hospital.
4. Uma enfermaria para as doenças contagiosas.
5. O local poderá ser escolhido nos arredores de Lisboa; o Pinhal da Guia, perto de Cascais, é o sítio que reúne as melhores condições.
6. É preferível construir o hospital segundo o sistema Tollet.
7. Um dispensário em Lisboa”.16

J. Oliveira Ferreira,Ida para o Dispensário

Em 06 de Junho de 1900 o Sanatório do Outão abria as suas portas, assegurando o tratamento a crianças escrofulosas. Um ano depois, em 05 de Junho de 1901, procedia-se à abertura oficial, ainda que provisória, do novo Dispensário Central de Lisboa, o qual só mais tarde, em Abril de 1906, viria a ser inaugurado com sede definitiva.

Em 1901, iniciava-se a construção de um sanatório na Parede, que obedecia a um projecto com vários pavilhões convenientemente isolados para receberem doentes inválidos e crianças tuberculosas.17

Em 20 de Fevereiro de 1909 dava-se também início às obras do Hospital de Repouso de Lisboa.

Entre 1900 e 1911, a Assistência Nacional podia já contar com um conjunto razoável de centros e unidades dotados de boas condições para tratamento de tuberculosos: “2 Sanatórios marítimos, 1 Sanatório terrestre e 5 Dispensários”.

No Dispensário de Lisboa, em virtude da grande afluência de doentes, praticamente desde o início do seu funcionamento, foi necessário proceder-se ao desdobramento dos serviços clínicos, ali disponíveis.18

Para além da consulta da manhã, criar-se-ia “uma outra, à tarde, dirigida pelo Dr. Henrique Mouton”, que, após a sua inauguração em 05 de Junho de 1902, viria a funcionar completamente autónoma da primeira, assumindo-se como um 2º Dispensário.19 Os dispensários assumiam para a Rainha, no contexto deste plano estratégico, uma importância muito especial e, ela própria, justifica o interesse da sua criação e existência numa das suas cartas dirigidas a Madame Maria Emília Palha, citando as palavras do seu conselheiro mais dilecto nestas matérias, o Dr. António Lancastre: “O Dispensário é da maior utilidade, não somente para as admissões no nosso hospital, mas também, uma vez convenientemente instalado, para nos permitir dar consultas e remédios gratuitos e, mesmo, poder curar numerosas crianças que não seriam admitidas nos hospitais, pois as suas mães nunca iriam querer separar-se delas”.20

A preocupação com a higiene pública e individual, evitando a disseminação da doença a partir das prováveis fontes bacilíferas levou a que se tomassem algumas medidas tendentes a educar a população, na esperança de corrigir um velho mau hábito [que ainda hoje é prática] comum entre nós: cuspir no chão. Para isso, [e pena é que a medida não se tenha mantido em vigor até aos nossos dias,] a 14 de Fevereiro de 1902, é lançado um edital assinado pelo Governador Civil de Lisboa, proibindo o “escarrar ou cuspir fora dos escarradores próprios, sob pena de 500 réis de multa (…)”.21

A República, porém, vitoriosa sobre a Monarquia, acabaria por se instalar em 1910 e a Rainha, com toda a sua família, ver-se-ia, inevitavelmente, forçada ao exílio, abandonando um projecto que foi considerado por muitos como uma das mais importantes obras filantrópicas e humanitárias do início deste século, em Portugal.
Procurando deter um conhecimento permanente e completo sobre tudo quanto se deliberava, assumindo o acompanhamento e a orientação de todas as iniciativas neste domínio, promovendo a angariação de fundos, vigiando obras, visitando regularmente centros e hospitais onde decorriam as consultas a tuberculosos, conversando com os doentes, impulsionando e envolvendo neste movimento algumas das maiores autoridades médicas na área da pneumo-tisiologia, a Rainha, empenhada profundamente na prossecução do seu projecto assistencial, foi, como nos diz Ayres de Sá, a “ditadora da Assistência”.22

Este esforço à escala nacional, procurando consciencializar, obviamente, a população dos riscos que corria perante tão grande difusão e “virulência” da doença, não pretendia limitar-se, apenas, ao tratamento e controlo dos casos individuais mas, sim, combater o mal, como uma doença social que era, nas suas múltiplas causas: alimentação precária, pobre sobretudo em vitaminas e proteínas, insalubridade dos bairros residenciais, da habitação e dos locais de trabalho por ventilação e arejamento deficientes ou inexistentes 23, “excessiva acumulação de habitantes” por fogo, excesso de trabalho, alcoolismo, carência de repouso e higiene individual e pública insuficientes.24

Anúncio ao óleo defígado de bacalhau

Na ausência de meios farmacológicos, sobretudo tuberculostáticos (o primeiro, a estreptomicina, só viria ser descoberto em 1944), para combater o flagelo, a comunidade médica portuguesa apostava nas únicas estratégias ao alcance, mais do que ensaiadas e de eficácia comprovada quando atempadamente aplicadas e, rigorosamente, seguidas pelos doentes: repouso, higiene de sono, clima marítimo ou de altitude, conforme os casos clínicos, e uma boa alimentação. A estas medidas, juntava-se uma outra que, em termos de profilaxia, era recomendada desde a Antiguidade: o exercício físico. É evidente que esta prática é realmente salutar. Todavia, torna-se fundamental que o praticante, minimamente informado sobre as vantagens da actividade física, disponha ao longo do dia de uns minutos para a prática de ginástica e observe alguns cuidados com a sua alimentação, necessariamente reforçada e diversificada, face ao maior desgaste calórico e bioquímico daí decorrente. E, aqui, depara-se-nos o “grande drama”: a maioria da população portuguesa, analfabeta e pouco aberta a inovações, ocupada num regime laboral intenso e desgastante, que lhe garantia o mínimo para a sobrevivência, não dispunha de receitas para inscrições em ginásios ou aquisição de aparelhos e equipamentos aconselhados para o exercício, nem, muito menos, para seguir dietas especiais ou compra de suplementos alimentares exigidos pelo desporto. [É espantoso e dramático, ao mesmo tempo, verificarmos “como a História se repete”. Grande parte da sociedade portuguesa actual, mergulhada numa crise económica prolongada e sem grandes recursos para garantir uma alimentação equilibrada e diversificada, à imagem do que acontecia nos finais do século XIX, início do XX, torna-se um alvo preferencial da tuberculose e de outras doenças infecciosas que habitualmente se instalam em populações com grande fragilidade alimentar e imunitária.]

Os pobres e necessitados, que na Lisboa dessa época se identificavam, predominantemente, com as classes operárias, eram e foram sempre, de facto, em termos de morbilidade e de mortalidade, os mais flagelados pela tuberculose. E essa noção ou reconhecimento da relação entre o estatuto económico familiar e a taxa de mortalidade ocasionada pela doença estava, por demais, estabelecida/o a nível da ciência médica, nessa altura, já muito apoiada na estatística.

Não obstante a electividade deste recurso preventivo (a prática regular de ginástica), de um modo geral, só acessível aos mais abastados, a comunicação social não se cansava de apregoar as vantagens da educação física, do exercício e do desporto.

No princípio do século XX, os jornais transbordavam de anúncios, recomendando fórmulas, exercícios e equipamentos considerados milagrosos no fortalecimento da mente e do corpo, condição fundamental para resistir a muitas doenças e para obter a cura em tantas outras.

Para o tratamento da tuberculose recomenda o Dr. Haussmann as fricções de sabão mole nas espáduas, duas vezes por semana, à hora de deitar-se, tendo o cuidado de lavar depois com água quente a parte friccionada. O ´British Medical Journal`, que dá a notícia em questão, supõe que a influência do sabão se deva à elevação dos princípios alcalinos do sangue pela elevação dos carbonato de potassa (…)”.25

Máquinas parafabricar saúde

A par das várias “máquinas para fabricar saúde”26, o ozonizador e o vibrador manual ou eléctrico, o primeiro, limitando o risco de contaminação aérea, esterilizando o ar e neutralizando os germes potencialmente patogénicos (e em particular, o bacilo da tuberculose), o segundo, estimulando a circulação, tonificando músculos através de vibrações suaves, mas enérgicas (melhorando, indubitavelmente, a resistência física e a imunidade geral do indivíduo, quando aplicado sob orientação “cientificamente” recomendada), aconselhava-se também o exercício físico, de preferência ao ar livre. Andar de bicicleta era, nesta época, uma recomendação comum em todos os jornais, como medida saudável a seguir, ainda que com algumas restrições: “A bicicleta pode ser inofensiva e até útil em certos casos ligeiros de perturbações cardíacas; porém, as mais das vezes é perigosa – como nas convalescenças de febres graves e doenças respiratórias em via de cura, exceptuando os asmáticos e os tuberculosos avançados. No caso de tuberculoso do último grau, torna-se útil o exercício moderado”.27

Confrontada com um bacilo altamente infeccioso (Mycobacterium tuberculosis), para o qual não dispunha de qualquer recurso farmacológico eficaz, a medicina portuguesa do 1º Quartel do século XX ficou a dever à Assistência Nacional aos Tuberculosos algumas das suas maiores vitórias no domínio da cura e da prevenção doença originada por este microrganismo. Todavia, com a descoberta do B.C.G., preparado pelo Instituto Pasteur, de Paris, e aplicado, pela primeira vez, em seres humanos em Junho de 1921, a ciência médica ganhava mais uma arma terapêutica que, apontada ao alvo da prevenção, sobretudo após a II Guerra Mundial, através das campanhas de vacinação em massa, alteraria substancialmente o quadro epidemiológico da doença em Portugal e em todos os países do Mundo onde esta estratégia veio a ter lugar. No nosso País, entretanto, a prática do B.C.G. só em 1928 viria a iniciar-se através da prescrição e responsabilidade do Dr. Élio de Vasconcelos Dias, médico de Viana do Castelo, o qual teve a possibilidade de adquirir a vacina no Instituto de Biologia Médica de Santiago de Compostela.28 Em 1929 o B.C.G. produzia-se já no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, de Lisboa.

A “aferição” do impacto epidemiológico da vacinação pelo B.C.G., em termos de morbilidade ou de mortalidade por tuberculose, nos seus primeiros anos de aplicação, quer devido à escassa cobertura do programa vacinal, quer, mesmo, devido às insuficiências do sector de estatística nacional, é, obviamente, uma “leitura” difícil de equacionar.

A sociedade portuguesa, durante as três primeiras décadas do século XX, limitada, assim, em termos farmacológicos específicos, no combate à tuberculose, pôde, contudo, beneficiar do vastíssimo programa de acções desenvolvidas pela A.N.T. (1899-1946), obra imorredoura fundada sob a égide da Rainha D. Amélia, bem como pelas múltiplas instituições, dispensários, hospitais-sanatórios e preventórios espalhados pelo País.

Bibliografia
BOLETIM da A.N.T., 4ª série, Vol.1, Set.1937
CARVALHO, Augusto da Silva. História da Medicina Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional de Lisboa, 1929
COELHO, Francisco José Sanches. Sobre a Tuberculose Pulmonar Crónica do Adulto, Lisboa, 1914 (Dissertação inaugural apresentada na Faculdade de Medicina de Lisboa)
CORREIO Elvense, 1900
Da A.N.T. ao S.L.A.T.: história sumária de uma instituição (1899-1979), Lisboa, 1979
JORNAL do Médico, s.l., Vol. 22, nº 557, 1953
MAGAZINE Bertrand, s.l., Vol. III, , 1900
MIRA, Matias Boleto Ferreira de. História da Medicina Portuguesa, Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1947
O CAMPEÃO, s.l., 20.Maio.1900
SÁ, Ayres de. Rainha D. Amélia, Lisboa, s.n.t., 1928
SACADURA, Costa. A Obra da Assistência Nacional aos Tuberculosos e a Rainha D. Amélia através de algumas Cartas Inéditas, Lisboa, 1949 (Opúsculo nº 95)
SANTIAGO, António Gonçalves. A Tuberculose e os Dispensários, Lisboa, Impresso pela Casa dos Tipógrafos, 1911 (Dissertação inaugural apresentada na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa)


Notas e Referência Bibliográficas

1. Autor: João Frada — Médico, Professor aposentado da Faculdade de Medicina de Lisboa. Texto revisto e actualizado, publicado in Portugal 1900. Lisboa: Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, 2000, p.91-100
2. Matias Boleto Ferreira de Mira. História da Medicina Portuguesa, Lisboa, 1947, p.471-80
3. Da A.N.T. ao S.L.A.T.: história sumária de uma instituição (1899-1979), Lisboa, 1979, p.7
4. Augusto da Silva Carvalho. História da Medicina Portuguesa, Lisboa, 1929, p.21
5. Da A.N.T. ao S.L.A.T.: história sumária de uma instituição (1899-1979), p.9
6. Idem, ibidem
7. Não obstante a grande campanha de consciencialização sobre os perigos da tuberculose e as medidas de prevenção, assumida pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, a partir de 1901, foi em Coimbra que se realizou, em 1895, o 1º Congresso dedicado à terrível doença, durante o qual o Prof. Augusto Rocha, realçando a eficácia dos “ares” na cura deste mal, cita uma frase de Florence Nightingale, suficientemente elucidativa dessa importância: “ Para os tísicos, respirar um ar puro é simplesmente respirar a vida” (Ferreira de Mira, “La lutte contre la tuberculose au Portugal. Aperçu historique”, Boletim da A.N.T., 4ª série, vol. 1, Set. 1937, p. 17
8. Considerado um médico de grande competência, António Lancastre deslocar-se-ia a vários países europeus, nomeadamente a, França, à Suíça e a Itália, para se inteirar das condições aí observadas e aconselhadas no tratamento e na hospitalização de tísicos.
9. Da A.N.T. ao S.L.A.T. (…), p.10
10. Idem, ibidem
11. Idem, passim
12. Idem, p.22-3
13. Idem, p.14-7
14. Costa Sacadura, A Obra da A.N. aos Tuberculosos e a Rainha D. Amélia através de algumas cartas inéditas, Lisboa, 1949, p.24 [A tradução do texto deste opúsculo, publicado em francês, é da total responsabilidade do autor deste trabalho]
15. Este grupo engloba os indivíduos que, por uma razão qualquer constituem terreno favorável à contaminação pela tuberculose. Segundo António Lancastre, incuem-se neste grupo os filhos de tuberculosos, os escrofulosos e os portadores de doenças crónicas (Idem, p.25)
16. Idem, p.27
17. Idem, ibidem
18. António Gonçalves Santiago. A Tuberculose e os Dispensários, Lisboa, 1911, p.31-3
19. Da A.N.T. ao S.L.A.T. (…), p.31
20. Costa Sacadura, op. cit., p.26-7
21. Da A.N.T. ao S.L.A.T. (…), p.31
22. Ayres de Sá. Rainha D. Amélia, Lisboa, 1928, p.55
23. A propósito da importância destes factores, Francisco José Sanches Coelho, na sua Dissertação Inaugural sobre Tuberculose Pulmonar, apresentada em 1914 na Faculdade de Medicina de Lisboa, cita a Lei de Strauss, que se resume no seguinte: “ A mortalidade por tuberculose está na razão directa do número de andares das habitações e na razão inversa das dimensões das ruas, pátios e janelas” (Francisco José Sanches Coelho, Sobre a Tuberculose Pulmonar Crónica do Adulto, Lisboa, 1914, p.69-70)
24. António Gonçalves Santiago, op. cit., p.25
25. “Novas de Longe”, Correio Elvense [dia?, mês?], 1900 [p.?]
26. “Machinas para fabricar saúde”, Magazine Bertrand, Vol. III, 1900, [p.?]
27. “A bicicleta e a medicina”, O Campeão, 20.Maio.1900, [p.?]
28. Ludgero Lopes Parreira. “Vacinação pelo B.C.G. nas escolas primárias”, Jornal do Médico, Porto, Vol.22, Nº 557, 1953, p.633-47

AFINAL QUEM É QUE GANHOU ESTAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DA REPÚBLICA?


Caros Amigos

Afinal quem é que ganhou estas eleições Presidenciais da Republica?

Apenas 1/5 dos Portugueses é que escolheram (reconduziram) o Presidente.
Aconteceu uma abstenção recorde de 53,36%. Os votos Brancos quadruplicaram e os votos Nulos duplicaram.
Cavaco perdeu meio milhão de votos, Alegre perdeu trezentos mil e Lopes 170 000.
Nobre ganhou seiscentos mil, Coelho cento e noventa mil.
Que concluir?
Se pegarmos nos 191 159 de votos Brancos, nos 86 543 votos NULOS, e juntarmos os 593 868 votos do "Candidato Independente dos Partidos" mais os 189 340 votos do "Anti-Candidato", será que estão aqui um milhão de eleitores dispostos a incomodar o “Sistema”?
E se juntarmos a este milhão de votos os 5 139 726 de Abstenções será lógico dizer-se que esta Republica é alimentado por apenas, pouco mais do que 1/3 dos seus Eleitores?
Vamos esquecer o discurso virulento do vencedor da "contenda", que na hora da vitória afirma que quer ser o Provedor do Povo, de Todos os Portugueses e ao mesmo tempo maltrata os vencidos, repetidamente?
Tenho o Professor Aníbal Cavaco Silva como um cidadão honesto e por isso até entendo, em parte, a sua revolta, mas não seria mais fácil ter prestado durante a campanha eleitoral todos os esclarecimentos necessários sobre as suas relações e da sua Família com o BPN assim como sobre a permuta da sua casa no Algarve, em vez de fazer o que fez?
Ajustar contas com os adversários vencidos em vez de unir TODOS os Portugueses para os tempos ainda mais difíceis que se aproximam, em vez de projectar o Futuro alimentando alguma esperança?
Assim, que concluir sobre quem é que afinal ganhou estas Presidenciais desta República?

Cá para mim foi mesmo o Rei...

Melhores cumprimentos

Paulo Corte-Real Correia Alves
Monárquico

PORQUE SOU MONÁRQUICO?

Não tenho palácios, nem títulos, nem anéis, nem pergaminhos. Entro na fila dos plebeus puros.

Se tivesse títulos, não os exibiria mas, também, não os enjeitaria.

Além disso, não sou contra ninguém. Do meu lado, como em todos os lados, há quem justifique aplausos e há quem mereça comiseração.

Um dia perguntaram à Amália se ela era monárquica ou republicana. E ela, com a intuição, a inteligência e a graça que a caracterizavam, respondeu; sou um bocadinho mais monárquica.

Por que republicanos somos todos, é, exactamente, esse bocadinho que me faz, também, ser monárquico. Republicanos no sentido de defensores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, princípios que o cristianismo formulou, a revolução francesa adoptou como divisa e a carta dos direitos do homem propõe a todo o Universo, somos todos!

Essa ideia peregrina de absolutismos, de castas, de privilégios, de “sangue azul” que, ainda hoje, aqui ou ali aparece apensa à monarquia, nunca foi minha e creio que, a sério, já não é de ninguém.

Sou monárquico pelo bocadinho que a monarquia acrescenta à república.

É que os nossos reis nasceram com a Pátria e a Pátria com eles. No caso português, Pátria e Rei fazem parte do mesmo acontecimento fundador. Ambos são, por isso, inerência e factor da identidade portuguesa. Os “genes fundadores” pertencem a ambos.

Pátria e Monarquia arrancam dos mesmos alicerces e a seiva que lhes entrou por raízes comuns percorre-os e alimenta-os conferindo-lhes uma espécie de consanguinidade.

Os Reis são um permanente carimbo de Pátria.

Sei que foi com reis que fomos grandes.

Sei que um Rei não divide porque, sendo tão indiscutível com a Pátria, pertence a todos como ela.

Sei que o Rei é um símbolo com marca de perenidade.

E a simbologia, não sendo uma realidade substantiva é muito mais que uma fantasia alienante.

Os símbolos dão, alimentam e orientam convicções e por isso, devem ser permanentes. Os símbolos não se mudam.

Os hinos nacionais, as bandeiras das pátrias, não mudam ao sabor dos ventos e dos votos.

O Rei anda mais ligado à noção de Pátria, entidade indiscutível e perpétua, o Presidente da República anda mais perto da noção de Estado, entidade variável no conceito, na organização, no conteúdo.

Quantos Presidentes da República tivemos desde 1917?

Só depois do 25 de Abril foram seis! Alguém viu no Dr. Manuel de Arriaga ou no Dr. Teófilo Braga ou no Marechal Spínola ou no General Costa Gomes um símbolo de Portugal?

Quando muito um símbolo do poder.

Pode alguém comparar o que representa para Portugal D. Afonso Henriques ou D. Diniz ou D. João II ou D. Manuel I ou D. Pedro IV, com algum dos Presidentes da República que já tivemos? Nem poder natural, nem simbologia.

Podem ter cumprido o seu papel de forma inteligente, profícua, digna, mas são cidadãos sem vínculo natural e definitivo à Pátria, cidadãos que passaram e as Pátrias não passam.

O Rei, por ter um percurso histórico paralelo ao da Pátria identifica-se com ela e, por isso, dela recebe e a ela dá carácter.

Mais do que o representante, um Rei é um símbolo; um Presidente da República é, apenas, um representante temporário.

Enquanto que o Presidente da República emana de arranjos ocasionais e sempre fluidos de partidos, sempre de uma só parte dos portugueses, o Rei arranca de um tronco que nos contém e que foi a coluna vertebral da história.

Os presidentes da República andam, como os governos, ao gosto das votações e das políticas. Não permanecem. Um Rei sucede a outro numa linha de continuidade que o torna, mais coerentemente, um símbolo. Pode mudar a pessoa do Rei, mas a sucessão é natural, imediata, fácil, incontroversa, como uma lei da natureza. Muda a pessoa, mas permanece a ligação orgânica, genética às origens, a um sentimento, a uma educação, a uma relação quase familiar, aos sucessos de uma longa história em que foram protagonistas.

A monarquia portuguesa é uma instituição que vem do início e com a qual convivemos    durante tantos séculos, tem alicerces cavados com a mesma fundura e que seguiram os mesmos sacrifícios dos que foram feitos para criar a Pátria e, por isso , identifica-se com ela.

O Rei é um órgão de uma soberania contínua. Agora, que a Pátria Portuguesa perdeu muita da sua independência, são necessários elementos que liguem o que fomos ao que queremos ser, num querer alimentado por valores eternos.

A ideia peregrina de que somos todos iguais e, por isso, todos temos o direito de poder aspirar a ser Presidente da República é pouco mais que infantil. A probabilidade de alguém via a ser Presidente da República seria, em Portugal, de 0.000 00001% se todos tivessem acesso a essa hipótese longínqua e demagógica. Mas não! De acordo com a nossa Constituição, só os nascidos em território nacional e maiores de 35 anos poderão candidatar-se e, além disso, qual foi o Presidente da República Portuguesa que não foi um político activo emanado das forças políticas organizadas, dos partidos? Quantos são os portugueses nessas condições? Onde é que está a igualdade de oportunidades?

Argumento ridículo.

Fala-se, também, do preço que a monarquia custaria ao País. Quantos Presidentes da República vivem, hoje, à custa do erário público? Vivem e Deus os conserve vivos e felizes durante muitos anos! Mas, vencimentos altos, carros, chauffeurs, staff, a multiplicar por quatro!

O outro argumento republicano recorrente é o de que a lei da hereditariedade pode oferecer-nos um mentecapto, um tarado, um energúmeno, um marcado pela natureza. Ninguém nega uma eventualidade possível. Tivemos, numa história de oito séculos, dois casos: D. Afonso VI e D. Maria I. Contudo, ambas as situações foram ultrapassadas com a normalidade que a história regista. E de quantos casos temos notícia de monstros que, por via não hereditária, chegaram à chefia dos Estados e dos Governos, alguns mesmo pela via do sufrágio universal. Não é um exercício teórico. Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar dos mais desgraçados, dramáticos, tenebrosos exemplos de loucura que a história regista. Foi por esta via que os republicanos Ceaucescu, Karadsik e os mais emblemáticos chefes dos nossos dias, Hitler e Estaline, chegaram onde chegaram e fizeram o que fizeram!

Não! Esqueçam, também esse argumento.

Acresce que a implantação da grande maioria das repúblicas ficou ligada a actos de violência extrema: foi preciso matar e matou-se: assim morreram Luís XVI e Maria Antonieta, em França, D. Carlos e o Príncipe Real D. Luís Filipe em Portugal, toda a família de Nicolau II na Rússia. E eu sou contra a violência.

Há, ainda, outro motivo que também conta muito para mim. É que meu Pai comparava, muitas vezes, aquilo que viveu durante os últimos dezasseis anos de Monarquia, com o que passou durante os dezasseis primeiros da República. Eu ouvi-o sempre com a atenção de um filho e, além disso, não posso deixar de comparar, hoje, o que se passa nas monarquias do norte da Europa com o que se vive nas repúblicas do sul,

Finalmente, haverá quem conceba que o vínculo místico que liga um Povo ao sei Rei, ilustrado neste poema imortal de Fernando Pessoa possa, alguma vez estabelecer-se com um Presidente da República?

Aqui ao leme sou mais do que eu;
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. João II.

É por tudo isto que também sou um bocadinho mais monárquico


Serafim Guimarães, 5 de Outubro de 2010
Fonte: Sítio da Real Associação do Porto

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PPM: ABSTENÇÃO PROVA NECESSIDADE DE REFERENDAR O REGIME REPUBLICANO

O Partido Popular Monárquico (PPM) afirmou hoje à Lusa que "a elevada taxa de abstenção nas presidenciais e a campanha negativa feita pela maioria dos candidatos, demonstra que o atual regime republicano necessita de ser referendado".

O vice-presidente do PPM, Manuel Beninger, defendeu que só assim será possível aos portugueses "escolher entre um sistema monárquico ou um sistema republicano de chefia do Estado".

"O facto de a maioria dos portugueses não ter votado, põe em causa a credibilidade do sistema republicano de chefia do Estado", realçou.

Segundo Beninger, há "um número cada vez maior de cidadãos, que se questiona sobre a possibilidade e as vantagens de uma Monarquia Democrática, tal como existe em muitos países europeus".

Beninger reiterou a "exigência de alteração da Constituição no sentido de dar aos portugueses a liberdade e o direito de poderem escolher, através de referendo nacional, qual o sistema de chefia do Estado que preferem, se o Monárquico se o Republicano".

"A campanha negra protagonizada por três candidatos contra o professor Cavaco Silva, prova que o regime democrático se vem degradando, levando a que os eleitores se afastem da vida cívica e política", lamentou.

Fonte: Diário Digital

BALANÇO DO PPM DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

A MONARQUIA É TAMBÉM O MAIS POÉTICO DOS REGIMES (ARTIGO DE OPINIÃO)

Nos tempos de submissão á tirania do vil metal - quintessência do culto economicista que somos obrigados a praticar - dir-se-á que não há lugar para os poetas e seus devaneios.

A verdade, porém, é que é nos picos das carências e na angústia das incertezas que mais necessária ou mesmo imperiosa se torna a dulcificação pelo sonho.

Vive-se com menos pão e pior roupa, havendo fartura de sol e de luar.

Os amanhãs cantantes da promessa bolchevista viraram relâmpagos incendiários.

As faixas que haviam de substituir as coroas e as tiaras deram em tarjas de sepulcro.

Os nossos republicanos cujo plano de acção se concretizava - eles o disseram - bebendo o sangue do ultimo rei pela caveira do ultimo bispo ou enforcando o ultimo rei nas tripas do ultimo papa, geraram décadas de sanguinolenta balbúrdia.

Em Ourique, o nosso primeiro monarca desbaratou, semeando a morte nos seus arraiais, o terrível Almoleimar e os quinze emires, seus vassalos ou aliados, que o acompanhavam.

E todavia, Ourique, porque obra de um rei, tornou-se numa inesgotável fonte do mais puro lirismo.

Centenas de poetas tem glosado o tema, apesar disso sempre virgem, e alguns dos nossos melhores sonetos - género em que batemos o pai Petrarca - terminam evocando-o.

Nova manhã de Ourique se anuncia...

Vai despontar outra manhã de Ourique.

A matéria poética revela-se superabundante no longo historial das dinastias e precedendo mesmo a nacionalidade.

QUANDO NASCEU AO PÉ DO VERDE PINO
AINDA PORTUGAL, SE NÃO ME ILUDO,
ERA UM CONDADO INCERTO E PEQUENINO
SEM QUINAS NEM CASTELOS SOBRE O ESCUDO

Depois, tornou-se império

TEM DA AFRICA OS MARITIMOS ASSENTOS
E NA ASIA MAIS QUE TODOS SOBERANO
NA QUARTA PARTE NOVA OS CAMPOS ARA
E SE MAIS MUNDOS HOUVERA LÁ CHEGARA,

MAS

BARAO PORTUGALES DA RECONQUISTA
HOMEM RUDE DO SENHOR INFANTE
O MESMO SONHO A VIDA NOS EMBALA

QUALQUER QUE SEJA A ALMA EM QUE SE ASSISTA
GUERREIRO, TROVADOR OU MAREANTE
FOI SEMPRE A POESIA A NOSSA FALA,

E é efectivamente a um soneto aliás do autor destes dois tercetos e em formoso ditirambo a Almacave que vamos buscar a inspiração para o nosso tema de hoje

Começaremos por transcreve-lo na íntegra, incarnando um daqueles circunstantes à embora mítica assembleia

ELES O AFIRMAM COM ASPECTO GRAVE
ELES O AFIRMAM COM PROFUNDA VOZ
E UM CORO IMENSO REBOOU NA NAVE
O REI É LIVRE E LIVRES SOMOS NÓS

O REI É LIVRE - E O GRITO DE ALMACAVE
NÃO FOI SOMENTE O GRITO DOS AVÓS
POR MAIS QUE O TEMPO EM NOSSAS VEIAS CAVE
NUNCA DESATA ESTES ANTIGOS NÓS

O REI É LIVRE. E COM SEU ELMO ERGUIDO
É PORTUGAL TORNADO CORPO E ALMA
NA SUCESSÃO DO TEMPO INDEFINIDO.

O SANGUE O DIZ E O SANGUE NÃO ENGANA
QUE VER O REI NA SUA FORÇA CALMA
É VER A PATRIA COM FIGURA HUMANA

Nesta simbiose entre o rei de elmo erguido e o corpo e alma da Pátria é que se consubstanciam a força e a poesia da instituição monárquica

(Texto enviado por Manuel Leal Freire, monárquico e ilustre advogado da cidade do Porto, que interpreta, em prosa e verso, como ninguém a cultura portuguesa).
 

ILLEGITIMATE!



When it comes to shallow journalism, The Age is always an exemplary model, because it never fails when you need it to demonstrate this thesis. Today’s headline President wins outright in Portugal just stated, that the incumbent Anibal Cavaco Silva “grabbed more than the 50 per cent of the vote needed to win outright”. The Socialist Manuel Alegre came second with 19.75 per cent.

Was that it? Another triumph of republican democracy? You could think so if you just read The Age.

The Portuguese media tell a complete different story. In reality the Portuguese Monarchists were jubilant, because they had called for a boycott of the presidential elections, which proved to be successful. Only 46.62 per cent of those entitled to vote bothered to go to the polls: 5,139,583 out of 9,631,222 registered voters stayed away from the polling booths. Among the 4,490,147 voters, 4.26 per cent or 191,170 cast a blank vote another 86,545 or 1.93 per cent cast an invalid vote. In the end, a mere 40.4 per cent wanted to have a say in who should be Portugal's president - 59.6 per cent could not care less about the republic's highest representative.

So, let’s examine The Age’s news item: Mr Cavaco Silva won outright? He received 2,230,240 votes, which represent only 23.16 per cent of the electorate. Compared with the last presidential election in 2006 Mr Cavaco Silva lost 526,372 vote. His main rival, the Socialist Manuel Alegre did not fare much better: He lost 294,591 votes (down from 1,126,612 to 832,021) compared to 2006.

Portuguese Monarchists were delighted about the result of this presidential election: “Portuguese say NO to the republic" (PORTUGUESES DIZEM NÃO À REPÚBLICA) was one of the headlines.

Before the elections, the Portuguese had been called to “de-republic” Portugal (NESTE DOMINGO, VAMOS DESREPUBLICANIZAR PORTUGAL) and Monarchists were shown how to vote invalid by writing in “I want a King!



So, what The Age loved to call an outright win may be the beginning of the long end of the Portuguese republic. Long live the King! Viva o Rei! Viva Portugal Real!

 

Fonte: Blogue "Radical Royalist"