quinta-feira, 2 de setembro de 2010

E DA REPÚBLICA PORTUGA

ESTAMOS FARTOS DISTO. VIVA O REI!
É notícia do dia. Marcelo Rebelo de Sousa aconselha a reeleição de Cavaco Silva «para manter a social-democracia em Belém». O que equivale, inevitavelmente, a perpetuar, por essas paragens, uma bandeira laranja-rosa. Santa paciência, Sr. Prof. Isto ainda vai sendo um País de homens-homens e mulheres-mulheres... Esperemos que averso a possidoneiras.

Tristíssima e reprovável intervenção de um especialista em Direito Público. Lá que ele queira a social-democracia no Governo - acho muito bem. Transpô-la para a Chefia de Estado, é que não.

Nem o Estado nem - muito menos - a Nação devem ter cor partidária. Marcelo tem a obrigação de saber isso. E sabe. Mas a República obra amontoados desta natureza. Já em 1910 se vestiu com as cores do Partido Republicano. Contra tudo e contra todos.

No fundo, devemos-lhe agradecimentos. Foi esclarecedor. Na sua perspectiva, Belém será laranja (ou rosa). Na nossa, deverá ser sempre nacional, ostentando as cores isentas que fizeram a Nacionalidade. O que, obviamente, pressupõe que a Nação mantenha a Realeza, símbolo real da nossa identidade.

João Afonso Machado

Fonte: Centenário da República

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

DOM DUARTE MOSTRA FÉ EM FERRAGUDO

Depois de meio século de interregno, a procissão de Nossa Senhora da Conceição, em Ferragudo, voltou ao mar, com a imagem da Virgem a ser transportada em barcos.

E quem testemunhou o recuperar desta tradição foi Dom Duarte Pio. O Duque de Bragança que costuma passar férias na localidade algarvia próxima de Portimão, esteve na procissão acompanhado da Família.
 
(Vidas - Correio da Manhã)
(Fonte: Blogue "Família Real Portuguesa")

DOM MIGUEL [II] DE BRAGANÇA

Artigo no "Ilustração Portuguesa" a 1 de Novembro de 1927, a propósito da morte de D. Miguel II, avô do actual Duque de Bragança

D. Miguel II de Bragança (nome completo Miguel Maria Carlos Egídio Constantino Gabriel Rafael Gonzaga Francisco de Paula e de Assis Januário de Bragança), nasceu em Kleinheubach,a 19 de Setembro de 1853. Veio a falecer em Seebenstern, a 11 de Outubro de 1927 .

Foi o único filho varão de D. Miguel I e de sua consorte, Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, e último pretendente ao trono português da linha de D. Miguel.Renunciaria em favor do seu filho mais novo, D. Duarte Nuno de Bragança, em Bronnbach, a 30 de Julho de 1920, a pedido de uma comissão de monárquicos, representante do Partido Legitimista e da Junta Central do Integralismo Lusitano.Com a Morte do último Rei de Portugal, D. Manuel II (derradeiro descendente de D. Maria II), o diferendo entre liberais e legitimistas findaria naturalmente com a prevalência da linhagem de D. Miguel na sucessão ao Trono de Portugal.

O artigo abaixo transcrito é um testemunho à memória de D. Miguel II, filho de D. Miguel I e avô de D. Duarte Pio de Bragança.

D. MIGUEL DE BRAGANÇA

«Falar do Legitimismo — a abnegada e ferrenha teoria política que defendeu os direitos de D. Miguel I e seus descendentes ao trono português ! — é encher-se-nos a alma duma indizível melancolia, duma inexplicável saudade!... Que intérmino cortejo de sombras, Deus do céu! que infindável procissão de mortos!... O Legitimismo é, hoje, a alameda sombria dum enorme camposanto! Ê lá que encontraremos os grandes nomes desse desinteressado e nobilíssimo partido que os adversários alcunhavam de sebastianista mas ao qual sempre dedicaram respeito... Tudo desapareceu, arrastado pela asa fria da morte, até mesmo o próprio Legitimismo que já não é hoje precisamente o que era aqui há vinte anos : a mocidade que, após o advento do regime republicano, entendeu dever combater este, deu ao velho ideal bases novas, novas razões de ser, e até nome novo... O Legitimismo desse grande polemista injustamente esquecido que se chamou D. Jorge Eugênio de Locio e Seiblitz; dos poetas delicadíssimos que foram João de Lemos e Pereira da Cunha ; dos partidários cheios de abnegação e carinho, como esse grande caracter que foi o dr. Ferreira Cardoso, esse Legitimismo pertence já à história das idéas políticas : é uma grande Sombra que, meia dúzia de outras sombras veneráveis, persiste em olhar, com o espírito perturbado pela saudade ... .Os partidários do antigo regime continuam, como sempre, dividos por uma barreira intransponível, que nos não cumpre criticar aqui... Mas, a batalha a que se dedicam perdeu num dos campos as determinantes antigas : se, de um lado, se defendem ainda os princípios vencedores em 1834, do outro já se não argumenta com a simples questão da legitimidade : vai-se muito mais longe e, a turba aguerrida e buliçosa que cerca o novo pretendente, não o defende porque ele seja a verdadeiro detentor dos , direitos a uma coroa, mas tão somente porque vê nele simbolisadas tendências políticas diametralmente opostas ao ideário liberal... O resto pertence ao passado, ao grande cortejo de nobilíssimas figuras, à triste e altiva Procissão dos Mortos...

E é esse passado que, no momento actual, nos interessa evocar, com o seu ar amarelecido de folha morta e o seu perfume inconfundível, cheio de imensa e saudosissima melancolia. ..
...Com a morte do Senhor Dom Miguel de Bragança — que os últimos Abencerragens do legitimismo persistiam em chamar Dom Miguel II — chega-se ao termo da alameda de um grande camposanto !... Penetrar nela é ver surgir a nossos olhos uma interminável teoria de grandes fidalgos e grandes caracteres, rodeando uma figura de lenda — o vulto popularissimo e português de um rei exilado que viu escachoarem em redor de si formidáveis ódios e cercarem-no espantosas dedicações...

Já D. Maria II — aquela soberana portuguesa que os legitimistas — teimosa mas respeitosamente — chamavam «a Senhora Dona Maria da Glória, Princesa do Grão Pará» — já ela, impressionada pela extrema correcção dos adversários da sua realeza, declarava fácil conhecer os legitimistas : «Os partidários de meu tio são todos aqueles que me tiram o chapéu quando me vêem!...» Com efeito, entre nós, gente meridional, afeita às grandes truculências da frase e do gesto, nunca houvera quem com tamanha gentileza e aprumo soubesse discutir e guerrear. Na história do Legitimismo, aquele Padre José Agostinho de Macedo, tão vernáculo e malcriado, ou aquele façanhudo abade de Rebordosa, Alvito Buela Pereira de Miranda que, nos tempos do Senhor Dom Miguel, pedia clamorosamente a cabeça dos liberais e, depois, em 34, se passava ruidosamente para os seus adversários, esses polemistas constituíram excepções

D. MIGUEL I e sua esposa, D. SOFIA ADELAIDE, por ocasião do seu casamento (Da colecção do autor)

desaprovadas pelo Legitimismo, que só aproveitou do primeiro o aprimorado amor pela pátria linguagem... Podemo-lo dizer afoitamente — é a história dos últimos cem anos que no-lo conta com exhuberância! — os reis do período liberal só foram insultados — e com que ferina crueldade e rematada injustiça! — pelos seus próprios partidários !... Mas a luzida cohorte de nobres e plebeus que ao serviço do Rei Exilado punha vida, esforço e haveres, essa gente de primeira escolha calçava sempre luva branca se discutia com um adversário e Deus sabe com que aprumo, convicção inabalável e respeitosa delicadeza o faziam! As tradições dessa pleiada — que se pode considerar quasi desaparecida ! — eram uma fidalguia de processos, unia firmeza de idéas e uma abnegação extremada em favor de uma causa da qual nada podiam esperar... Maior, portanto, a beleza do seu gesto e da sua vida! E os adversários, embora sorrindo daquilo a que chamavam «o último sebastianismo», nunca deixaram de prestar justiça à abnegação, à cortezia e lhaneza do partido do Exilado... Ainda há hoje quem se lembre — e com quanta saudade, meu Deus ! — do que foram Fernando Pedroso — aquele dedicado jornalista do Legitimismo que a verde irreverência de Ramalho alcunhara de o «sr. Fernando Todo Poderoso» ! — do poeta João de Lemos, um dos primeiros que tivemos no período tumultuoso do Romantismo ; dos dois Pereira da Cunha, senhores do solar de Portuzelos em terras do Minho e um dos quais, Sebastião Pereira da Cunha, foi o escritor ilustre de A Cidade Vermelha e O Saio de Malha; de Dom Jorge Eugênio de Locio e Seiblitz, o temível mas correctíssimo e impecável polemista que, nas colunas de A Nação, deixou ficar vencidos três inimigos da Legitimidade : — Martens Ferrão, Tomás Ribeiro e Mendes Leal! — dos condes de Almada e Arvanches, D. Miguel e D. Antão, tão nobres, tão dedicados e tão generosos ! dos condes do Sampaio, de São Martinho, da Redinha — cuja lar era um modelo de virtudes cristãs e de caridade, não havendo pobreza (fosse ela branca, vermelha ou azul e branca!) que os dois esposos não socorressem! — de Lucas Castelo; de D. Sancho Manuel de Vilhena, um gentil homem e um erudito que mereceu, a adversários como Alexandre Herculano, os maiores elogios pelo seu valor moral e pela sua sciência; e tantos outros, que à causa do Exilado devotaram uma existência inteira, sem um instante de tergiversação, sem um desfalecimento de convicções!...

D. MIGUEL DE BRAGANÇA (Fotografia gentilmente cedida pelo Ex.mo Sr. Dr. Fernando Ferreira Cardoso)

Ser-se legitimista era, por esses tempos idos, a melhor garantia de pureza de costumes e de portuguesismo : os legitimistas eram os católicos fervorosos, os adeptos do poder temporal dos Papas — e quantos estiveram em Roma ao lado do Senhor D. Miguel II, como zuavos pontifícios na luta contra as revolucionárias camisolas vermelhas dos garibaldinos! — eram os apóstolos da santidade do lar e das grandes tradições lusitanas...

O Legitimismo — todos o reconheceram, desde Teixeira de Vasconcelos até aos republicanos de hoje ! — foi o mais abnegado e mais nobre de quantos partidos surgiram nesta soalheira e florida terra de partidos e partidários...

Morto porém D. Miguel I em Carlsruhe, perto da sua adoptiva Bronnbach, aos sessenta e quatro anos de idade, e trinta e dois de exílio, em consequência de uma inesperada paralisia pulmonar, o país inteiro vibrou de intensa comoção; o luto estendeu-se por toda a terra lusitana, desde as casas senhoriais dos fidalgos de velha estirpe que acaudilhavam o régio exilado, até à gente humilde do povo, grande parte da qual o amara entranhadamente e lhe permanecera fiel, lembrada de quando o seu vulto formosissimo, varonil e português, cavalgara pelas ruas da Lisbóa de então e se chegava de preferência ao povo, com o qual gostava de privar, sem perder uma linha do seu aprumo e elegância reais... Nunca houve em terras de Portugal um ser que tão sufragado fosse : certo legitimista meu amigo, ferrenho e dedicado à sua causa, — o pobre Costa Afonso que a morte sumiu para sempre, haverá uns quatro anos ! — contava-me que as exéquias solenes, celebradas na paroquial da Graça — esta freguesia, com a de S. Vicente e a dos Anjos, eram o poiso tavonto e costumeiro da gente do sr. Dom Miguel! — haviam surpreendido toda Lisbôa pela pompa extraordinária, pela concorrência espantosa que enchia a velha igreja dos frades gracianos e se estendia como uma formidável multidão lutuosa pelas circunvisinhanças... De norte a sul, o luto e a saudade exteriorisavam-se em centenas e centenas de sufrágios, em artigos sobre artigos exalçando as virtudes de um moço que, aos trinta e dois anos, Evora-Monte enviava para o exílio de onde nunca mais havia de regressar... A imprensa,— mesmo aquela que mais adversa fora das idéas legitimistas — curvava-se cheia de respeito perante a morte de D. Miguel I, e o liberalissimo Pinheiro Chagas, num artigo que ficou célebre pelo sentimento e pela isenção, celebrava a constância e a resignada nobreza com que o vencido de 34 sofrera o seu grande infortúnio, — tão lacerado de privações, de miséria e de saudades ! — sem nunca se arredar, nem um ápice, das idéas que defendera de armas na mão, e as quais acreditava como únicas verdadeiras e santas...

Desde esse momento — 14 de Novembro de 1864, há quási sessenta e três anos Senhor! — as atenções voltaram-se para o filho do Exilado, como este e sua família, ferido também pela proscrição... Era um rapazito de treze anos, calmo e triste, cônscio já do enorme encargo que sobre ele ficara pesando ; um mocito que nascera sobre terra de Portugal, de cá levada propositadamente pelos fieis partidários do seu pai, e para cujo baptismo de cá fora também a água lustral, ida da matriz de Guimarães aonde Afonso Henriques fora baptisado!

Dominava-o a sede do portuguesismo, o amor acendrado pelas sciências nas quais veiu a doutorar-se na Universidade de Innsbruck. Seu preceptor, aquele venerando modelo de honradez e dedicação que foi o dr. António Joaquim Ribeiro Gomes de Abreu — e o qual a intervenção de Costa Cabral livrara de ficar para sempre riscado da nossa Universidade ! — incutira-lhe idéas de nobreza e patriotismo que, possivelmente, neste desabar tristissimo da vida portuguesa, não serão talvez compreendidas !... Assim se formou o caracter do novo pretendente para o qual os legitimistas passaram toda a adoração que tinham pelo pai. E, valha a verdade ; aquele a quem de ali em diante, os seus partidários começavam chamando o sr. Dom Miguel II, não desmentia as qualidades que o seu régio progenitor e sua santa mãe lhe haviam transmitido. A vida inteira do morto de agora foi um modelo de coerência, de honradez e de virtudes cristãs...

Com dezassete anos apenas, apresentava-se a Pio IX, vestido de zuavo pontifício, pronto a verter o seu sangue em defeza da causa temporal dos Papas, ameaçada e depois vencida, na brecha da Porta Pia, quando por esta entraram de roldão as camisas vermelhas de Garibaldi... Então, a sua vida reparte-se entre a sua carreira de militar e os cuidados extremosos da sua família, o amor da sua causa sem esperança e os extremos pela pátria de que o baniam as leis. A sua vida, exemplarissima, conhecem-a Deus — a quem há dias prestou contas — e todos quantos seguiam com enlevo as manifestações do seu aprimorado caracter.

Não há nela uma só mancha ; é a vida de um homem de bem, cultíssimo e portuguesissimo. Ódios não os tinha, a lama jamais o salpicou. Possivelmente teria, a ferirem-lhe os ouvidos sempre, as palavras, ensopadas de lágrimas, que sua mãe — a santa princesa que depois se recolheu a um convento da Ilha de Wight — lhe disse ao receber em 1864 a deputação legitimista que de aqui fora prestar as últimas homenagens a D. Miguel I :

— «Meu querido Filho, lembra-te de que a vida passa como o fumo... Teu Pai estava bom num dia e, no seguinte desapareceu. A vida é um sonho e tu também hás de desaparecer!.. Mas, quando a Morte se aproximar, só te há de lembrar se cumpriste ou não os teus deveres!... E lembra-te sempre de que tua Mãe, como se estivesse deante de Deus, e na presença destes portugueses, te diz que prefere ver-te viver e morrer pobre a deslisares uma só linha da estrada que seguiu teu heróico Pai — que o seu único pensamento era Portugal!...»

E pode dizer-se que os conselhos de sua formosíssima e desventurada mãe, aquela suave Princesa de Loewenstein-Wertheim von Rosenberg, Dona Sofia Adelaide Amélia, foram integralmente seguidos. A desgraça — que a ele o feriu cruelmente, como a seu pai — encontrou-o sempre firme, as lágrimas nos olhos, Deus nos lábios e no coração. Era um português antigo, um representante legitimo de reis e de um regime banido, que não sabia ter ódio por ninguém, fosse ele liberal ou republicano... Nunca ninguém teve motivo para se queixar dele : o seu coração abria-se a todos os portugueses... Coronel do exército austríaco, quando Portugal se pôs ao lado dos inimigos da Alemanha, o Senhor Dom Miguel de Bragança, embora a Áustria não estivesse em guerra comnosco, passou da arma de cavalaria de que fazia parte para a milícia dos que, nos campos da pugna gigantesca, sob um inferno de metralha feroz, arriscam a vida para salvar o seu semelhante, amigo ou inimigo : — a Cruz Vermelha...

Era assim o seu caracter diamantino, era assim que ele entendia a qualidade de que tanto se orgulhava : — ser português. longe do herdeiro do seu nome, que o amor levara a romper com os preconceitos de raça ; afastado para sempre do filho segundo, o príncipe Dom Francisco José — morto como um herói durante a Grande Guerra e antes da nossa participação nela, — o filho do Exilado continuou, como sempre, fiel aos seus mortos e aos seus três grandes amores : — Deus, a sua pátria e a sua família. Nem a miséria qne o salteou nos últimos anos da vida, nem as privações d'ela resultantes e o cortejo de angustias que se lhe seguiu, abateram o seu carácter de diamante sem jaça : permanecem como sua mãe lhe indicara, há sessenta e três anos quási, perante o cadáver do pai...

...E possivelmente, na hora extrema, ao escutar e repetir as orações dos agonisantes, rodeado pela nobilíssima cohorte de Sombras dos que a morte ceifara entre os seus fieis e dedicados amigos, possivelmente ainda, nessa hora tremenda e saudosa ele se lembrou da terra dos seus maiores e misturou aos soluços do Memorare e do Sub tuum Presidium o nome querido de Portugal, o nome que magicamente nos põe a todos de acordo, olhos marejados de lágrimas, coração batendo de amor puríssimo, de mil vezes sagrado amor !...

...Fechou-se a grande alameda do camposanto imenso que é o Legitimismo!... Desce para o túmulo a última Sombra... Que a morte nos reconcilie a todos e nos não impeça de reconhecer o quilate finíssimo das virtudes de Proscripto!... Morreu um grande homem de bem, um português que sempre o soube ser... Paira no ar o tom amarelecido das folhas mortas, o perfume inconfundível de uma saudosa e imensa melancolia... É o Passado que se fecha... O que nos trará o futuro?...

...Inclinemo-nos todos, adversários e amigos do filho do vencido de Evora-Monte!... E, levados pelo gesto arripiante da Morte, beijemos a mão do português cujo exílio de setenta e quatro anos ela, a Eterna Vencedora, por mandado de Deus finalmente quebrou...»

ÁLVARO MAIA,in ILUSTRAÇÃO nº 45 (2º ano) de 1 de Novembro de 1927

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ENTREVISTA DE S.A.R. O SENHOR DOM DUARTE À REVISTA "MAIS ALENTEJO" EM JUNHO DE 2008

Seria um BOM REI

DUARTE PIO JOÃO MIGUEL GABRIEL RAFAEL DE BRAGANCA - POSSIVELMENTE, O LEITOR NÃO SABE, MAS É ESSE O NOME COMPLETO DO CHEFE DA CASA REAL PORTUGUESA, QUE TODOS CONHECEMOS "SIMPLESMENTE" POR DOM DUARTE DE BRAGANCA. CONSIDERADO AQUILO A QUE OS MAIS FEROZES REPUBLICANOS, IRÓNICAMENTE, DIZEM SER UMA ESPECIE DE "REI SEM TRONO", O PROTAGONISTA DESTA EDIÇÃO DA MAIS ALENTEJO, POR OUTRO LADO TEM UM NOTÓRIO CAPITAL DE SIMPATIA JUNTO DO POVO PORTUGUES. REALIDADE A QUE TALVEZ NÃO SEJA ALHEIA A SIMPLICIDADE - E TAMBÉM A FORMA DESEMPOEIRADA E FRONTAL - A QUE NOS HABITUOU AO LONGO DA SUA VIDA. CASADO COM DONA ISABEL DE HERÉDIA.TRÊS FILHOS, NASCEU EM BERNA (SUÍCA, ONDE A FAMÍLIA SE ENCONTRAVA ENTÃO EXILADA), NA EMBAIXADA DE PORTUGAL, PORTANTO.EM TERRITÓRIO PORTUGUES A 15 DE MAIO DE 1945. APÓS O REGRESSO A PORTUGAL DA FAMÍLIA REAL, NOS ANOS 50 DO SÉCULO XX, ESTUDOU EM SANTO TIRSO E, MAIS TARDE, INGRESSOU NO COLÉGIO MILITAR, EM LISBOA. DOM DUARTE DE BRAGANÇA CUMPRIU O SERVIÇO MILITAR EM ANGOLA, COMO TENENTE PILOTO AVIADOR DA FORCA AÉREA (1968/71). EM 1972, AINDA EM TERRAS ANGOLANAS, ORGANIZOU UM GRUPO INDEPENDENTE DE CANDIDATOS À ASSEMBLEIA NACIONAL, OUSADIA QUE LHE CUSTOU A EXPULSÃO DAQUELE ANTIGO TERRITÓRIO PORTUGUES. A LIGAÇÃO A ANGOLA- BEM COMO AOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA-, ESSA, PERMANECEU VIVA ATÉ AOS DIAS DE HOJE, CONFORME PODE COMPROVAR-SE PELOS VÁRIOS PROJECTOS QUE TEM DINAMIZADO. TIMOR É IGUALMENTE UMA PAIXÃO ANTIGA TENDO SIDO, ALIAS, UMA DAS PRIMEIRAS VOZES A LEVANTAR-SE, EM PORTUGAL, CONTRA A OCUPAÇÃO E AS ATROCIDADES OCORRIDAS NO TERRITÓRIO, NUMA ALTURA EM QUE A CAUSA TIMORENSE ERA ASSUNTO TABU. DOM DUARTE DE BRAGANCA, EM CONVERSA QUE MANTEVE COM A NOSSA REVISTA, ABORDOU AS VANTAGENS QUE, NA SUA OPINIÃO, PORTUGAL TERIA A GANHAR, CASO OS PORTUGUESES PUDESSEM TROCAR A REPÚBLICA PELA MONARQUIA, ALÉM DE RESPONDER AS HABITUAIS PERGUNTAS DIRIGIDAS A TODAS AS PERSONALIDADES ENTREVISTADAS NESTA RUBRICA.

(14 de Junho de 2008)
entrevista: António Sancho
Fotos: Maria Cascais

Quase 100 anos após a implantação da República, que, naturalmente, coincidiu com o fim da monarquia, em Portugal, ainda faz sentido ser-se monárquico e pretender o regresso da monarquia?

Faz sentido comparar o progresso dos países que têm reis e rainhas, na Europa de hoje, com o nosso atraso e compreendermos até que ponto é que esse atraso é devido a um regime republicano. Faz todo o sentido fazer-se essa comparação, analisar as realidades políticas actuais e tirar as respectivas conclusões.

Na essência, que diferencia a República da Monarquia?

Diferenciam-se a várias dimensões. A mais corrente, pragmática e primária, reside no facto do chefe de Estado, na monarquia, ser completamente independente de partidos, grupos financeiros e, portanto, poder agir, realmente, como supremo magistrado, árbitro e fiel da balança, enquanto na República é muito raro isso acontecer. Normalmente, os presidentes pertencem a partidos políticos e, por vezes, até fazem como alguns - em Portugal houve um recentemente - que decidem derrubar o partido do governo para favorecer o seu próprio partido, o qual, nas sondagens, já estava a obter bons resultados. Isso nunca aconteceria numa monarquia onde os reis mantêm sempre grande independência em relação aos interesses partidários. Depois, há uma outra vantagem que diz respeito à questão económica. A casa real espanhola, por exemplo, custa cinco vezes menos do que a presidência portuguesa. Isto no tempo do anterior presidente, mas hoje em dia não deve ser muito diferente. Isso quer dizer que, por habitante, custa 18 vezes menos do que o presidente de Portugal. O resto das monarquias europeias assemelha-se a essa situação, com excepção da inglesa, que é um pouco mais cara, mas, mesmo assim, a rainha de Inglaterra, por cada habitante inglês, fica mais barata, proporcionalmente, do que o presidente de Portugal.

Que propõe para que o povo português equacione, neste início do século XXI, o regresso ao regime monárquico? Um referendo?

Primeiro tem que haver informação livre, justa e objectiva. Esse é o papel das reais associações. Uma informação justa para que, após a existência de uma percentagem da população que esteja interessada numa mudança, a questão possa ser colocada à opinião pública. Existe, no entanto, um problema.A nossa constituição proíbe essa situação. É muito pouco democrática a nossa constituição. O artigo 288 diz que é inalterável a forma republicana de governo, quando aquilo que propomos é que se altere o texto para: "é inalterável a forma democrática de governo". Esta proposta foi feita no Parlamento há sensivelmente dois anos e teve a maioria dos votos, mas não chegou aos dois terços necessários para mudar a constituição. Seja como for, houve mais de metade dos votos a favor da proposta de alteração.

Acha que seria um bom rei?

Nós temos tido Presidentes da República muito bons, o general Ramalho Eanes, Mário Soares, o actual presidente Cavaco Silva... Mas o papel deles torna-se mais difícil do que o papel de um rei. Estou convencido que seria um bom rei e que poderia ser tão bom como os actuais reis europeus. Certamente tão bom ou melhor que os presidentes que temos tido. Não por causa de qualidades pessoais, mas por causa da instituição, que favorece um bom desempenho. É difícil ser um mau rei e a prova é que na Europa do século XX não houve maus reis, todos eles foram considerados muito bons.

Ser-se monárquico significa estar à direita ou à esquerda do espectro político português?

Não se pode negar que a maior parte dos monárquicos são conservadores. Há bastantes católicos, mas sempre houve, também, bastantes militantes monárquicos de esquerda. Depois existe um outro tipo de pessoas que são simpatizantes, não se assumem como monárquicos, mas dão muito apoio. Até têm havido muitos do Partido Comunista que dão grande apoio às nossas visitas, aos congressos das associações. Noto no sector de esquerda, nomeadamente no Partido Comunista, uma grande simpatia pelo movimento monárquico. Obviamente que eles dizem que são contra a monarquia, mas, por outro lado, também são contra o actual sistema republicano. O projecto comunista é completamente diferente.

Pessoalmente, considera-se de esquerda ou de direita?

Em teoria, não concordo com essa distinção. No entanto, com base no panorama político português, bem como nos valores que são defendidos, diria que, moralmente, sou conservador, mas política, económica e socialmente sou mais reformador. Existem aspectos em que me revejo mais no pensamento socialista, mas, por outro lado, há situações em que me revejo mais num pensamento reformador e moderado. Sobretudo, moralmente, sou bastante conservador. A base para medir o que está certo e errado, para mim, é a mensagem de Cristo. É a partir daí que vejo o que está certo ou errado. Cristo foi um homem extraordinariamente preocupado com as questões da justiça, mas, por outro lado, sempre fez uma grande diferença entre o que era vida espiritual e vida política. Há muitos séculos que sabemos ser obrigação do cristão lutar para que a cidade de Deus na terra seja possível através de um regime justo. Santo Agostinho perguntou qual a diferença entre um bando de ladrões e um governo. Um bando de ladrões pode governar e fazer o povo contente, mas o objectivo é que, eles próprios, ganhem dinheiro. Já um governo só é digno desse nome se tiver como objectivo o progresso espiritual e material da população.

Como reage ao livro "O usurpador", escrito por Nuno da Câmara Pereira, o qual coloca em causa a sua legitimidade enquanto herdeiro da coroa portuguesa?

Gosto da capa do livro porque diz "O Usurpador" Nuno da Câmara Pereira. Quanto ao conteúdo não acredito que tenha sido escrito pelo Nuno da Câmara Pereira. Ele não seria capaz de escrever aquelas coisas todas, não tem formação política para escrever aquilo. Sei quem escreveu o livro...

Não foi Nuno da Câmara Pereira que o escreveu?

Foi um advogado, que eu conheço e fazia de conta que era meu amigo. O próprio Câmara Pereira... Eu era muito amigo dele, dávamo-nos muito bem e ele nunca discordou minimamente dos meus direitos dinásticos. Pelo contrário, pediu-me licença para usar o título de "Dom", só que isso não foi tratado por mim, mas sim avaliado pelo conselho de nobreza, que negou, dizendo que não havia razões familiares que o justificassem. Ele ficou muito zangado e começou esta campanha. O conteúdo do livro, uma parte do livro, até não está mal feita, mas contém um conjunto de mentiras completas e não tem uma base minimamente séria.

Se vivêssemos em monarquia, pensa que Portugal estaria melhor ou pior e porquê?

Não serve de muito comparar com o passado, não sabemos muito bem como as coisas teriam evoluído. Se D. Carlos não tivesse sido assassinado, a monarquia não teria caído, considerando que, democraticamente, os republicanos tinham somente sete por cento dos votos em Portugal. Os republicanos tomaram o poder através de um golpe. Em 1900, Portugal estava a meio da tabela europeia de desenvolvimento. Agora está praticamente no último lugar. Em 100 anos, perdemos 50 pontos. Atrasámo-nos muito. Se estivéssemos em monarquia, todos os líderes do Ultramar o diziam, teríamos evoluído para uma espécie de "Commonwealth" portuguesa, um reino unido, uma confederação de estados lusófonos que, pacificamente, tinham acedido a uma independência, mantendo provavelmente uma unidade com Portugal. Quase todos os nossos irmãos africanos são dessa opinião. Ao contrário, a descolonização foi uma tragédia para nós e um drama inconcebível para eles. O nível de corrupção, de mau governo, é quase sempre maior nas repúblicas do que nas monarquias. Hoje quase toda a gente se queixa da incompetência dos governos, falta de estabilidade, mudança de critérios. Nas monarquias, os reis não intervêm activamente, mas influenciam junto dos governos e contribuem de algum modo para a estabilidade. Julgo que caso tivéssemos continuado numa monarquia estaríamos hoje, provavelmente, ao nível da Bélgica, da Europa do Norte e, certamente, ao nível de Espanha. Não havia razão nenhuma para estarmos mais atrasados.

Que palavras encontra para qualificar o assassinato que vitimou o rei D. Carlos, o denominado regicídio, cujo centenário passou recentemente?

Os assassinos eram idealistas, acreditavam no que estavam a fazer, só que Bin Laden também é um idealista. Os suicidas que fizeram cair as torres de Nova Iorque também o fizeram por ideais. Uma coisa feita por ideal não é necessariamente justa e boa. O assassinato de um rei é um crime pavoroso porque é um crime contra uma nação inteira. Pessoalmente, o rei D. Carlos tinha uma capacidade excepcional de reinar, de chefiar o Estado português, fez um trabalho muito interessante em circunstâncias muito difíceis devidas, em parte, à instabilidade que a democracia portuguesa vivia na altura - a instabilidade não é consequência da monarquia mas sim da democracia -, a alternância muito grande dos partidos no governo, a grande pressão internacional dos ingleses, o ultimato. Dizer não aos ingleses, naquela altura, seria o mesmo que declararmos, agora, guerra aos Estados Unidos da América.

O Alentejo define-se com que frase?

Parece-me que o Alentejo não é definível com frases nenhumas. É preciso estar lá e sentir, estar com as pessoas, comer aquela comida e deixar-se embalar pela paisagem. É impossível explicar o Alentejo a quem não está lá.

Que livro ou livros está a ler neste momento?

Estou a ler vários ao mesmo tempo, uma coisa que costumo fazer, vou lendo à medida que posso.Tenho estado a ler "Salazar e a rainha", de Fernando Amaro Monteiro. Estou também a ler um livro de que gosto muito, talvez aquele que mais me está a marcar neste momento. Chama-se "Arquitectura, escolha ou fatalidade", do professor Leon Krier, um dos grandes arquitectos contemporâneos. Defende que a arquitectura não deve ser obrigatoriamente a arquitectura modernista do cinzento predominante que hoje aparentemente toda a gente faz, mas pode ser uma arquitectura tradicional e regional, inspirada na cultura, no ambiente e no clima. Acho fundamental, por exemplo, que o Alentejo perceba isso, não se deixando estragar como o Norte, responsabilizando as Câmaras Municipais e reconhecendo a falta de cultura de muitos arquitectos.

Existe alguma coisa que o faça perder a cabeça?

O que me irrita mais é a falta de lógica e de coerência, irrita-me muito porque é uma questão de educação. Qualquer pessoa pode ter um raciocínio lógico e tomar atitudes coerentes.Irrita-me muito a estupidez assumida, alguém que pára o carro no meio de uma rua e não deixa ninguém passar, ou aquele que constrói uma casa muito feia num bairro muito bonito. Como se diria no Porto, uma atitude de "morcão". O indivíduo ordinário que tem orgulho em ser ordinário.

Quais são a sua maior qualidade e o defeito mais marcante?

O defeito talvez seja o de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e, portanto, não as fazer tão bem como faria se estivesse concentrado num só objectivo.Tenho talvez uma certa falta de método na maneira de agir. Quanto à minha maior qualidade, julgo que devem ser os outros a dizê-lo e não eu. Não me fica bem salientar as minhas qualidades... Acho que são muitas, mas não me fica bem dizer.

Como se define a si próprio?

Acredito em certos valores na vida e tento segui-los, ser coerente com aquilo em que acredito, embora por vezes não consiga fazer aquilo que queria, mas vou tentando.

Acalenta algum sonho secreto?

Tenho muitos. Alguns ficam guardados no armário à espera de uma ocasião oportuna e outros, quando vejo ser boa altura para os expor, procuro concretizá-los.Tenho, por exemplo, um projecto para a Guiné, muitíssimo interessante, que penso poder parar a desertificação naquela zona de África e permitir que a população rural viva do campo e não precise emigrar e correr o risco de morrer pelo caminho. Basicamente, consiste em técnicas agrícolas mais eficazes que podem ser ensinadas, bem como plantações que ajudam a proteger o ambiente e também a produzir combustível doméstico para não cortarem as árvores.Também gostaria de introduzir em Angola esse projecto e outro que tem a ver com a educação. Criei tipografias e bibliotecas em vários locais. No que respeita a tipografias, temos uma muito boa em Timor e outras mais pequenas em Angola... Timor é um país extraordinário, muito especial, cujo povo tinha gostado de continuar português, mas ninguém deixou. Foram, por assim dizer, expulsos da nacionalidade portuguesa, como foram os naturais de S.Tomé e Cabo Verde, por exemplo. Foi um dos actos mais injustos, expulsar populações inteiras impedindo-as de serem portuguesas. E agora estamos muito preocupados porque a língua portuguesa desaparece... E desaparece, precisamente, devido à escassez de livros. Uma das coisas que julgo importante é criar gráficas para produzir livros para o ensino básico e para as faculdades desses países.

Lembra-se da sua primeira namorada?

Sim, sim, muito bem.

Concorda com o casamento entre homossexuais?

As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com a sua vida, mas parece-me existir uma confusão entre aquilo que é a coabitação e a união de facto. Pode ser entre homossexuais ou entre duas velhas amigas, que vivem juntas num apartamento, não acho que isso se possa chamar casamento.A instituição casamento existe especificamente para proteger os filhos. Esse é o verdadeiro casamento. Como essas uniões não têm por objectivo a procriação, acho que não se deviam chamar casamento.

Sim ou não - legalização de drogas leves?

Tenho uma opinião que talvez possa ser considerada polémica. Há uma lei que nunca ninguém conseguiu mudar. É a lei da oferta e da procura. Enquanto houver procura, vai sempre haver oferta e enquanto houver pessoas que queiram consumir droga, haverá sempre quem a venda. Por isso, o problema terá de ser resolvido a nível do consumidor. Um adulto que queira consumir drogas leves — e isso não influencie de modo nenhum os adolescentes a consumi-las —, não vejo como se possa proibir. Não faz sentido proibir adultos de fumarem marijuana, acho eu. No entanto, admito o outro lado do problema, ou seja, se hoje quase é proibido o uso do tabaco é porque o tabaco faz mal aos mais jovens. Será que com a legalização do consumo de marijuana é possível evitar que ela seja consumida por adolescentes, a quem efectivamente faz muito mal? O mesmo problema põe-se para o álcool. Penso que mais cedo ou mais tarde vai ser autorizado o consumo controlado de marijuana.

Qual considera ser o principal problema da sociedade mundial actual?

O problema mais dramático, neste momento, reside nas mudanças climáticas, as quais são, em grande parte, consequência de uma atitude moral e ética totalmente abandalhada, na qual as nossas sociedades entraram. Os nossos políticos, cientistas e as pessoas com algum nível cultural, há muito tempo perceberam que a destruição ambiental estava a provocar um desastre, mas como não convinha levantar o problema, por razões económicas ou políticas, calou-se a situação. Agora estamos a ver-nos aflitos, sem saber se ainda vamos a tempo de evitar que o desastre nos atinja. Parece-me, assim, que o problema ambiental é o mais grave dos nossos tempos, mas é consequência da decadência moral e a falta de sentido ético na política e no comportamento individual.

Qual a coisa mais irreverente que fez até hoje e nunca contou a ninguém?

Se nunca contei a ninguém também não posso contar agora. Acho mesmo que não posso contar...

Que sente quando ouve o hino português e olha para a republicana bandeira portuguesa?

O hino foi dedicado ao meu avô e é um bonito hino, sinto-me, de facto, emocionado. Por outro lado, a bandeira tem as cores erradas, mas o escudo certo. O escudo português é o mesmo da minha família, muito bonito. As cores, verde e vermelha, é que estão um bocado erradas e, um dia, devia discutir-se a mudança, se seria uma bandeira toda azul, da cor do oceano, simbolizando os mares portugueses, ou azul e branca, como era em 1910. De facto, penso estar já na altura, 100 anos após esta República falhada - estas três Repúblicas mais ou menos falhadas -, vermos se não terá sido a bandeira que nos deu azar. Independentemente do regime político, devíamos discutir a bandeira que queremos para o país.Até porque o que acompanhou a história de Portugal foi o escudo que, felizmente, os republicanos tiveram o bom senso de manter.

(Fonte "Mais Alentejo")

PÚBLICO - (SEMI)ABANDONAMOS O NOSSO PATRIMÓNIO REAL

Não só o património natural (não cuidamos suficientemente dos nossos parques e reservas naturais como temos visto) mas também o património histórico-cultural. Refiro-me, a título de exemplo, ao comboio real português que tem sido vedeta no museu ferroviário de Utreque (Holanda). Numa exposição que decorre até 10 de Setembro, onde se podem apreciar carruagens reais de toda a Europa. O nosso comboio, um dos dois que se encontram ainda completos, é uma das peças mais apreciadas, pelos visitantes e pela rainha Beatriz, que disse ter fi cado “impressionada” com o salão D. Maria Pia, uma das partes que formam a composição, juntamente com a locomotiva D. Luiz e a carruagem do príncipe D. Carlos.Ainda segundo o PÚBLICO de 6/8, a locomotiva D. Luiz (outrora a mais rápida do mundo) foi construída em 1862 para a Exposição Internacional de Londres, onde ganhou uma medalha de ouro. 1862 é também o ano em que D. Luís e D. Maria Pia se casam. No ano seguinte, nasce o fi lho D. Carlos, futuro rei de Portugal. Em 1864, e graças a Fontes Pereira de Melo, Portugal possuía cerca de 720 Km de rede ferroviária, e em 1894 o nosso país alcançava “um honroso décimo lugar entre as nações do mundo no que respeitava à densidade ferroviária por quilómetro quadrado, estando à frente de países como a Espanha, a Roménia, a Noruega (…)”, afirma Oliveira Marques. Os caminhos-de-ferro e as estradas vieram facilitar o comércio, e foram estabelecidos vários tratados comerciais, inclusivamente com a Holanda.

Agora vem a segunda parte da minha exposição: o comboio real português foi recuperado, os portugueses puderam vê-lo até Março no Entroncamento, antes de partir para a Holanda. Ora estas despesas, ainda de acordo com o jornal PÚBLICO, saíram do bolso dos holandeses!?: “As autoridades holandesas não pouparam esforços para recuperar o comboio que estava semiabandonado na secção museológica de Santarém (…) ficaram deslumbrados com o conjunto da composição e pagaram 55 mil euros pela sua recuperação e uma pequena fortuna pelo seu transporte em 4 camiões TIR.” Sinto vergonha… Éramos ricos, agora somos pobres.

Céu Mota
Santa Maria da Feira
(Fonte: Causa Monárquica )

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A VERSÃO HISTÓRICA DOS VENCIDOS

O livro do jornalista monárquico Joaquim Leitão relata a descoordenação militar, denuncia a fuga de ministros e até revela que o futebol serviu de senha aos revolucionários

Do depoimento de todas as testemunhas dos factos de Outubro é que tem de sair a confirmação da verdade, seja ela triste, seja ela consoladora." O jornalista Joaquim Leitão fez a reconstituição do golpe através da versão dos monárquicos que foi entrevistando, compilando no livro Diário dos Vencidos (publicado em 1911 e agora reeditado pela Alêtheia) os artigos que escrevera no jornal Correio da Manhã logo após a implantação da República.

Além de revelar os problemas militares, com o capitão Martins de Lima a sustentar que o plano secreto de defesa do coronel José Joaquim de Castro (que, neste livro, defende a sua estratégia, num curioso confronto de versões) "foi mais prejudicial à Monarquia que todo o clorato de potássio e dinamite dos carbonários, foi uma bomba única, fenomenal, que derrubou um regime e cujo estampido repercutirá para sempre na História de Portugal", esta obra também denuncia as traições, "coincidências que lembram cumplicidades, fraquezas que parecem vendas, desorientações que passam por cobardias".

No quartel-general, o ministro da Guerra, Raposo Botelho, "estava vestido à paisana, sentado à mesa, reconfortando-se com um caldo reparador". O seu colega Marnoco e Sousa, "o intemerato ministro da Marinha que o [primeiro-ministro] sr. Teixeira de Sousa foi pescar ao Mondego" (era professor de Direito em Coimbra), após entrar pela primeira vez na vida no Arsenal, saiu de lá, foi bater à porta de uma pensão e alugou um quarto. "O proprietário, carbonário, reconhecendo o ministro, deixou-o entrar e fechou-o à chave por fora."

Mas nada se compara "às atribulações do sr. Pereira dos Santos, último ministro das Obras Públicas da Monarquia, [que,] fugindo com o terror da chacina, pelos bairros excêntricos de Lisboa, são de encomenda para alegrar um chorão". O governante andou a mendigar um abrigo para se esconder ("prefiro morrer à fome do que fuzilado") e, quando, dias depois, chegou à sua casa no Estoril, passou várias vezes diante da porta com medo que estivesse ocupada pelos revoltosos, que, decerto, o executariam.

Perante isto, de pouco vale a explicação do capitão de infantaria que tinha fugido, ao ser interpelado por um oficial do Estado Maior: "Caiu ao pé de mim uma granada que me atirou um torrão com toda a força e que me magoou imenso. Está claro que me vim embora."

Panorama dos acontecimentos obtida junto dos que se esforçaram por defender o regime monárquico ou assistiram a tudo junto de D. Manuel II, o livro mostra imensos absurdos. O Campo Entrincheirado, por exemplo, "não podia intervir de maneira nenhuma", explicava anonimamente "um oficial de artilharia, muito conhecido pelo nome político da família, e antigo deputado, que pertencia à guarnição dum dos fortes" daquele complexo. "Eu explico. O Campo Entrincheirado compreende as baterias Rainha Amélia, Rainha Maria Pia e Duque de Bragança, na margem norte; e a bateria da Raposeira, na margem Sul; São Gonçalo, ao pé da Duque de Bragança. As da margem norte batem até Entre-Torres e fora da barra, sendo nestas que estão os obuses de 28. A Raposeira bate por cima da Trafaria. Ora, as baterias estão assentes para defender Lisboa de ataques de fora, e não de ataques de dentro. E como o campo de tiro, nestas peças de tiro indirecto, não abrange o quadro dos navios de guerra, o Campo Entrincheirado não podia bater cá para dentro. Para o Campo Entrincheirado incomodar os navios [republicanos] era preciso que eles saíssem a barra. Mas há mais coisas curiosas. Caxias tem obuses de 28 e tem lá um farol. Pois, como o farol podia cair, nunca se experimentou os obuses."

Razão tinha Martins de Lima quando propôs que se prendesse o Governo, esses "intrusos" que punham o quartel-general "numa confusão de endoidecer". "E hoje estou arrependido de não insistir até o general prender os ministros. Afinal, quem fez a República foram eles."

O livro está repleto de preciosidades históricas. "Este é do pontapé na bola", dito pelos marinheiros revolucionários, pois "muitas praças do cruzador Adamastor jogavam bem o foot-ball", queria dizer "este é do movimento".

E Joaquim Leitão aproveita para lançar uma crítica fora do contexto. "Com a mania que há entre os filólogos - que são os homens mais maníacos que se podiam inventar - de traduzir o intraduzível, os desportistas entenderam que deviam traduzir o foot-ball por 'pontapé na bola'."

Jornalista cuidadoso, para não ser acusado de criar boatos, confirma os depoimentos e, quando não atribui a autoria, esclarece logo os leitores. "Quem é este nosso entrevistado?... Pouco importa sabê-lo. Basta que a garantir a autenticidade possamos dizer, como podemos, que Paiva Couceiro, a quem lemos a entrevista antes de a publicarmos, a confirmou em todos os pormenores."

Joaquim Leitão só não podia suspeitar que um dos três tenentes do quartel dos marinheiros de Alcântara, que não aderiram à revolução e foram presos, seria um vulto notável nas décadas seguintes. Chamava-se António Sérgio.

(Fonte: DN)

REAL TERTÚLIA COMEMORA 19º ANIVERSÁRIO EM MONTEMOR-O-NOVO

Manuel Andrade Guerra
A Real Tertúlia Tauromáquica D. Miguel I irá pela primeira vez comemorar o seu aniversário - 19º - fora de Lisboa, desta feita no próximo dia 5 de Setembro em Montemor-o-Novo, por ocasião da tradicional Feira da Luz.

Haverá um grande almoço nos Claustros do Convento de São Domingos (junto à praça de toiros, onde nessa tarde se realiza a habitual corrida de toiros) com ilustres convidados-surpresa e a presença do Sócio de Honra, Luis Miguel da Veiga, que será homenageado pelo facto de se assinalarem este ano 50 temporadas desde a sua apresentação como cavaleiro amador, precisamente na arena de Montemor.

Na altura, será também feita a apresentação no Alentejo do livro "Cavaleiros - Heróis com Arte", de Manuel Andrade Guerra (presidente do Directório da Real Tertúlia, na foto), obra essa que é em grande parte dedicada à Família Veiga.

(Fonte: Farpas Blogue)