terça-feira, 31 de agosto de 2010

ENTREVISTA DE S.A.R. O SENHOR DOM DUARTE À REVISTA "MAIS ALENTEJO" EM JUNHO DE 2008

Seria um BOM REI

DUARTE PIO JOÃO MIGUEL GABRIEL RAFAEL DE BRAGANCA - POSSIVELMENTE, O LEITOR NÃO SABE, MAS É ESSE O NOME COMPLETO DO CHEFE DA CASA REAL PORTUGUESA, QUE TODOS CONHECEMOS "SIMPLESMENTE" POR DOM DUARTE DE BRAGANCA. CONSIDERADO AQUILO A QUE OS MAIS FEROZES REPUBLICANOS, IRÓNICAMENTE, DIZEM SER UMA ESPECIE DE "REI SEM TRONO", O PROTAGONISTA DESTA EDIÇÃO DA MAIS ALENTEJO, POR OUTRO LADO TEM UM NOTÓRIO CAPITAL DE SIMPATIA JUNTO DO POVO PORTUGUES. REALIDADE A QUE TALVEZ NÃO SEJA ALHEIA A SIMPLICIDADE - E TAMBÉM A FORMA DESEMPOEIRADA E FRONTAL - A QUE NOS HABITUOU AO LONGO DA SUA VIDA. CASADO COM DONA ISABEL DE HERÉDIA.TRÊS FILHOS, NASCEU EM BERNA (SUÍCA, ONDE A FAMÍLIA SE ENCONTRAVA ENTÃO EXILADA), NA EMBAIXADA DE PORTUGAL, PORTANTO.EM TERRITÓRIO PORTUGUES A 15 DE MAIO DE 1945. APÓS O REGRESSO A PORTUGAL DA FAMÍLIA REAL, NOS ANOS 50 DO SÉCULO XX, ESTUDOU EM SANTO TIRSO E, MAIS TARDE, INGRESSOU NO COLÉGIO MILITAR, EM LISBOA. DOM DUARTE DE BRAGANÇA CUMPRIU O SERVIÇO MILITAR EM ANGOLA, COMO TENENTE PILOTO AVIADOR DA FORCA AÉREA (1968/71). EM 1972, AINDA EM TERRAS ANGOLANAS, ORGANIZOU UM GRUPO INDEPENDENTE DE CANDIDATOS À ASSEMBLEIA NACIONAL, OUSADIA QUE LHE CUSTOU A EXPULSÃO DAQUELE ANTIGO TERRITÓRIO PORTUGUES. A LIGAÇÃO A ANGOLA- BEM COMO AOS PAÍSES AFRICANOS DE LÍNGUA PORTUGUESA-, ESSA, PERMANECEU VIVA ATÉ AOS DIAS DE HOJE, CONFORME PODE COMPROVAR-SE PELOS VÁRIOS PROJECTOS QUE TEM DINAMIZADO. TIMOR É IGUALMENTE UMA PAIXÃO ANTIGA TENDO SIDO, ALIAS, UMA DAS PRIMEIRAS VOZES A LEVANTAR-SE, EM PORTUGAL, CONTRA A OCUPAÇÃO E AS ATROCIDADES OCORRIDAS NO TERRITÓRIO, NUMA ALTURA EM QUE A CAUSA TIMORENSE ERA ASSUNTO TABU. DOM DUARTE DE BRAGANCA, EM CONVERSA QUE MANTEVE COM A NOSSA REVISTA, ABORDOU AS VANTAGENS QUE, NA SUA OPINIÃO, PORTUGAL TERIA A GANHAR, CASO OS PORTUGUESES PUDESSEM TROCAR A REPÚBLICA PELA MONARQUIA, ALÉM DE RESPONDER AS HABITUAIS PERGUNTAS DIRIGIDAS A TODAS AS PERSONALIDADES ENTREVISTADAS NESTA RUBRICA.

(14 de Junho de 2008)
entrevista: António Sancho
Fotos: Maria Cascais

Quase 100 anos após a implantação da República, que, naturalmente, coincidiu com o fim da monarquia, em Portugal, ainda faz sentido ser-se monárquico e pretender o regresso da monarquia?

Faz sentido comparar o progresso dos países que têm reis e rainhas, na Europa de hoje, com o nosso atraso e compreendermos até que ponto é que esse atraso é devido a um regime republicano. Faz todo o sentido fazer-se essa comparação, analisar as realidades políticas actuais e tirar as respectivas conclusões.

Na essência, que diferencia a República da Monarquia?

Diferenciam-se a várias dimensões. A mais corrente, pragmática e primária, reside no facto do chefe de Estado, na monarquia, ser completamente independente de partidos, grupos financeiros e, portanto, poder agir, realmente, como supremo magistrado, árbitro e fiel da balança, enquanto na República é muito raro isso acontecer. Normalmente, os presidentes pertencem a partidos políticos e, por vezes, até fazem como alguns - em Portugal houve um recentemente - que decidem derrubar o partido do governo para favorecer o seu próprio partido, o qual, nas sondagens, já estava a obter bons resultados. Isso nunca aconteceria numa monarquia onde os reis mantêm sempre grande independência em relação aos interesses partidários. Depois, há uma outra vantagem que diz respeito à questão económica. A casa real espanhola, por exemplo, custa cinco vezes menos do que a presidência portuguesa. Isto no tempo do anterior presidente, mas hoje em dia não deve ser muito diferente. Isso quer dizer que, por habitante, custa 18 vezes menos do que o presidente de Portugal. O resto das monarquias europeias assemelha-se a essa situação, com excepção da inglesa, que é um pouco mais cara, mas, mesmo assim, a rainha de Inglaterra, por cada habitante inglês, fica mais barata, proporcionalmente, do que o presidente de Portugal.

Que propõe para que o povo português equacione, neste início do século XXI, o regresso ao regime monárquico? Um referendo?

Primeiro tem que haver informação livre, justa e objectiva. Esse é o papel das reais associações. Uma informação justa para que, após a existência de uma percentagem da população que esteja interessada numa mudança, a questão possa ser colocada à opinião pública. Existe, no entanto, um problema.A nossa constituição proíbe essa situação. É muito pouco democrática a nossa constituição. O artigo 288 diz que é inalterável a forma republicana de governo, quando aquilo que propomos é que se altere o texto para: "é inalterável a forma democrática de governo". Esta proposta foi feita no Parlamento há sensivelmente dois anos e teve a maioria dos votos, mas não chegou aos dois terços necessários para mudar a constituição. Seja como for, houve mais de metade dos votos a favor da proposta de alteração.

Acha que seria um bom rei?

Nós temos tido Presidentes da República muito bons, o general Ramalho Eanes, Mário Soares, o actual presidente Cavaco Silva... Mas o papel deles torna-se mais difícil do que o papel de um rei. Estou convencido que seria um bom rei e que poderia ser tão bom como os actuais reis europeus. Certamente tão bom ou melhor que os presidentes que temos tido. Não por causa de qualidades pessoais, mas por causa da instituição, que favorece um bom desempenho. É difícil ser um mau rei e a prova é que na Europa do século XX não houve maus reis, todos eles foram considerados muito bons.

Ser-se monárquico significa estar à direita ou à esquerda do espectro político português?

Não se pode negar que a maior parte dos monárquicos são conservadores. Há bastantes católicos, mas sempre houve, também, bastantes militantes monárquicos de esquerda. Depois existe um outro tipo de pessoas que são simpatizantes, não se assumem como monárquicos, mas dão muito apoio. Até têm havido muitos do Partido Comunista que dão grande apoio às nossas visitas, aos congressos das associações. Noto no sector de esquerda, nomeadamente no Partido Comunista, uma grande simpatia pelo movimento monárquico. Obviamente que eles dizem que são contra a monarquia, mas, por outro lado, também são contra o actual sistema republicano. O projecto comunista é completamente diferente.

Pessoalmente, considera-se de esquerda ou de direita?

Em teoria, não concordo com essa distinção. No entanto, com base no panorama político português, bem como nos valores que são defendidos, diria que, moralmente, sou conservador, mas política, económica e socialmente sou mais reformador. Existem aspectos em que me revejo mais no pensamento socialista, mas, por outro lado, há situações em que me revejo mais num pensamento reformador e moderado. Sobretudo, moralmente, sou bastante conservador. A base para medir o que está certo e errado, para mim, é a mensagem de Cristo. É a partir daí que vejo o que está certo ou errado. Cristo foi um homem extraordinariamente preocupado com as questões da justiça, mas, por outro lado, sempre fez uma grande diferença entre o que era vida espiritual e vida política. Há muitos séculos que sabemos ser obrigação do cristão lutar para que a cidade de Deus na terra seja possível através de um regime justo. Santo Agostinho perguntou qual a diferença entre um bando de ladrões e um governo. Um bando de ladrões pode governar e fazer o povo contente, mas o objectivo é que, eles próprios, ganhem dinheiro. Já um governo só é digno desse nome se tiver como objectivo o progresso espiritual e material da população.

Como reage ao livro "O usurpador", escrito por Nuno da Câmara Pereira, o qual coloca em causa a sua legitimidade enquanto herdeiro da coroa portuguesa?

Gosto da capa do livro porque diz "O Usurpador" Nuno da Câmara Pereira. Quanto ao conteúdo não acredito que tenha sido escrito pelo Nuno da Câmara Pereira. Ele não seria capaz de escrever aquelas coisas todas, não tem formação política para escrever aquilo. Sei quem escreveu o livro...

Não foi Nuno da Câmara Pereira que o escreveu?

Foi um advogado, que eu conheço e fazia de conta que era meu amigo. O próprio Câmara Pereira... Eu era muito amigo dele, dávamo-nos muito bem e ele nunca discordou minimamente dos meus direitos dinásticos. Pelo contrário, pediu-me licença para usar o título de "Dom", só que isso não foi tratado por mim, mas sim avaliado pelo conselho de nobreza, que negou, dizendo que não havia razões familiares que o justificassem. Ele ficou muito zangado e começou esta campanha. O conteúdo do livro, uma parte do livro, até não está mal feita, mas contém um conjunto de mentiras completas e não tem uma base minimamente séria.

Se vivêssemos em monarquia, pensa que Portugal estaria melhor ou pior e porquê?

Não serve de muito comparar com o passado, não sabemos muito bem como as coisas teriam evoluído. Se D. Carlos não tivesse sido assassinado, a monarquia não teria caído, considerando que, democraticamente, os republicanos tinham somente sete por cento dos votos em Portugal. Os republicanos tomaram o poder através de um golpe. Em 1900, Portugal estava a meio da tabela europeia de desenvolvimento. Agora está praticamente no último lugar. Em 100 anos, perdemos 50 pontos. Atrasámo-nos muito. Se estivéssemos em monarquia, todos os líderes do Ultramar o diziam, teríamos evoluído para uma espécie de "Commonwealth" portuguesa, um reino unido, uma confederação de estados lusófonos que, pacificamente, tinham acedido a uma independência, mantendo provavelmente uma unidade com Portugal. Quase todos os nossos irmãos africanos são dessa opinião. Ao contrário, a descolonização foi uma tragédia para nós e um drama inconcebível para eles. O nível de corrupção, de mau governo, é quase sempre maior nas repúblicas do que nas monarquias. Hoje quase toda a gente se queixa da incompetência dos governos, falta de estabilidade, mudança de critérios. Nas monarquias, os reis não intervêm activamente, mas influenciam junto dos governos e contribuem de algum modo para a estabilidade. Julgo que caso tivéssemos continuado numa monarquia estaríamos hoje, provavelmente, ao nível da Bélgica, da Europa do Norte e, certamente, ao nível de Espanha. Não havia razão nenhuma para estarmos mais atrasados.

Que palavras encontra para qualificar o assassinato que vitimou o rei D. Carlos, o denominado regicídio, cujo centenário passou recentemente?

Os assassinos eram idealistas, acreditavam no que estavam a fazer, só que Bin Laden também é um idealista. Os suicidas que fizeram cair as torres de Nova Iorque também o fizeram por ideais. Uma coisa feita por ideal não é necessariamente justa e boa. O assassinato de um rei é um crime pavoroso porque é um crime contra uma nação inteira. Pessoalmente, o rei D. Carlos tinha uma capacidade excepcional de reinar, de chefiar o Estado português, fez um trabalho muito interessante em circunstâncias muito difíceis devidas, em parte, à instabilidade que a democracia portuguesa vivia na altura - a instabilidade não é consequência da monarquia mas sim da democracia -, a alternância muito grande dos partidos no governo, a grande pressão internacional dos ingleses, o ultimato. Dizer não aos ingleses, naquela altura, seria o mesmo que declararmos, agora, guerra aos Estados Unidos da América.

O Alentejo define-se com que frase?

Parece-me que o Alentejo não é definível com frases nenhumas. É preciso estar lá e sentir, estar com as pessoas, comer aquela comida e deixar-se embalar pela paisagem. É impossível explicar o Alentejo a quem não está lá.

Que livro ou livros está a ler neste momento?

Estou a ler vários ao mesmo tempo, uma coisa que costumo fazer, vou lendo à medida que posso.Tenho estado a ler "Salazar e a rainha", de Fernando Amaro Monteiro. Estou também a ler um livro de que gosto muito, talvez aquele que mais me está a marcar neste momento. Chama-se "Arquitectura, escolha ou fatalidade", do professor Leon Krier, um dos grandes arquitectos contemporâneos. Defende que a arquitectura não deve ser obrigatoriamente a arquitectura modernista do cinzento predominante que hoje aparentemente toda a gente faz, mas pode ser uma arquitectura tradicional e regional, inspirada na cultura, no ambiente e no clima. Acho fundamental, por exemplo, que o Alentejo perceba isso, não se deixando estragar como o Norte, responsabilizando as Câmaras Municipais e reconhecendo a falta de cultura de muitos arquitectos.

Existe alguma coisa que o faça perder a cabeça?

O que me irrita mais é a falta de lógica e de coerência, irrita-me muito porque é uma questão de educação. Qualquer pessoa pode ter um raciocínio lógico e tomar atitudes coerentes.Irrita-me muito a estupidez assumida, alguém que pára o carro no meio de uma rua e não deixa ninguém passar, ou aquele que constrói uma casa muito feia num bairro muito bonito. Como se diria no Porto, uma atitude de "morcão". O indivíduo ordinário que tem orgulho em ser ordinário.

Quais são a sua maior qualidade e o defeito mais marcante?

O defeito talvez seja o de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e, portanto, não as fazer tão bem como faria se estivesse concentrado num só objectivo.Tenho talvez uma certa falta de método na maneira de agir. Quanto à minha maior qualidade, julgo que devem ser os outros a dizê-lo e não eu. Não me fica bem salientar as minhas qualidades... Acho que são muitas, mas não me fica bem dizer.

Como se define a si próprio?

Acredito em certos valores na vida e tento segui-los, ser coerente com aquilo em que acredito, embora por vezes não consiga fazer aquilo que queria, mas vou tentando.

Acalenta algum sonho secreto?

Tenho muitos. Alguns ficam guardados no armário à espera de uma ocasião oportuna e outros, quando vejo ser boa altura para os expor, procuro concretizá-los.Tenho, por exemplo, um projecto para a Guiné, muitíssimo interessante, que penso poder parar a desertificação naquela zona de África e permitir que a população rural viva do campo e não precise emigrar e correr o risco de morrer pelo caminho. Basicamente, consiste em técnicas agrícolas mais eficazes que podem ser ensinadas, bem como plantações que ajudam a proteger o ambiente e também a produzir combustível doméstico para não cortarem as árvores.Também gostaria de introduzir em Angola esse projecto e outro que tem a ver com a educação. Criei tipografias e bibliotecas em vários locais. No que respeita a tipografias, temos uma muito boa em Timor e outras mais pequenas em Angola... Timor é um país extraordinário, muito especial, cujo povo tinha gostado de continuar português, mas ninguém deixou. Foram, por assim dizer, expulsos da nacionalidade portuguesa, como foram os naturais de S.Tomé e Cabo Verde, por exemplo. Foi um dos actos mais injustos, expulsar populações inteiras impedindo-as de serem portuguesas. E agora estamos muito preocupados porque a língua portuguesa desaparece... E desaparece, precisamente, devido à escassez de livros. Uma das coisas que julgo importante é criar gráficas para produzir livros para o ensino básico e para as faculdades desses países.

Lembra-se da sua primeira namorada?

Sim, sim, muito bem.

Concorda com o casamento entre homossexuais?

As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com a sua vida, mas parece-me existir uma confusão entre aquilo que é a coabitação e a união de facto. Pode ser entre homossexuais ou entre duas velhas amigas, que vivem juntas num apartamento, não acho que isso se possa chamar casamento.A instituição casamento existe especificamente para proteger os filhos. Esse é o verdadeiro casamento. Como essas uniões não têm por objectivo a procriação, acho que não se deviam chamar casamento.

Sim ou não - legalização de drogas leves?

Tenho uma opinião que talvez possa ser considerada polémica. Há uma lei que nunca ninguém conseguiu mudar. É a lei da oferta e da procura. Enquanto houver procura, vai sempre haver oferta e enquanto houver pessoas que queiram consumir droga, haverá sempre quem a venda. Por isso, o problema terá de ser resolvido a nível do consumidor. Um adulto que queira consumir drogas leves — e isso não influencie de modo nenhum os adolescentes a consumi-las —, não vejo como se possa proibir. Não faz sentido proibir adultos de fumarem marijuana, acho eu. No entanto, admito o outro lado do problema, ou seja, se hoje quase é proibido o uso do tabaco é porque o tabaco faz mal aos mais jovens. Será que com a legalização do consumo de marijuana é possível evitar que ela seja consumida por adolescentes, a quem efectivamente faz muito mal? O mesmo problema põe-se para o álcool. Penso que mais cedo ou mais tarde vai ser autorizado o consumo controlado de marijuana.

Qual considera ser o principal problema da sociedade mundial actual?

O problema mais dramático, neste momento, reside nas mudanças climáticas, as quais são, em grande parte, consequência de uma atitude moral e ética totalmente abandalhada, na qual as nossas sociedades entraram. Os nossos políticos, cientistas e as pessoas com algum nível cultural, há muito tempo perceberam que a destruição ambiental estava a provocar um desastre, mas como não convinha levantar o problema, por razões económicas ou políticas, calou-se a situação. Agora estamos a ver-nos aflitos, sem saber se ainda vamos a tempo de evitar que o desastre nos atinja. Parece-me, assim, que o problema ambiental é o mais grave dos nossos tempos, mas é consequência da decadência moral e a falta de sentido ético na política e no comportamento individual.

Qual a coisa mais irreverente que fez até hoje e nunca contou a ninguém?

Se nunca contei a ninguém também não posso contar agora. Acho mesmo que não posso contar...

Que sente quando ouve o hino português e olha para a republicana bandeira portuguesa?

O hino foi dedicado ao meu avô e é um bonito hino, sinto-me, de facto, emocionado. Por outro lado, a bandeira tem as cores erradas, mas o escudo certo. O escudo português é o mesmo da minha família, muito bonito. As cores, verde e vermelha, é que estão um bocado erradas e, um dia, devia discutir-se a mudança, se seria uma bandeira toda azul, da cor do oceano, simbolizando os mares portugueses, ou azul e branca, como era em 1910. De facto, penso estar já na altura, 100 anos após esta República falhada - estas três Repúblicas mais ou menos falhadas -, vermos se não terá sido a bandeira que nos deu azar. Independentemente do regime político, devíamos discutir a bandeira que queremos para o país.Até porque o que acompanhou a história de Portugal foi o escudo que, felizmente, os republicanos tiveram o bom senso de manter.

(Fonte "Mais Alentejo")

PÚBLICO - (SEMI)ABANDONAMOS O NOSSO PATRIMÓNIO REAL

Não só o património natural (não cuidamos suficientemente dos nossos parques e reservas naturais como temos visto) mas também o património histórico-cultural. Refiro-me, a título de exemplo, ao comboio real português que tem sido vedeta no museu ferroviário de Utreque (Holanda). Numa exposição que decorre até 10 de Setembro, onde se podem apreciar carruagens reais de toda a Europa. O nosso comboio, um dos dois que se encontram ainda completos, é uma das peças mais apreciadas, pelos visitantes e pela rainha Beatriz, que disse ter fi cado “impressionada” com o salão D. Maria Pia, uma das partes que formam a composição, juntamente com a locomotiva D. Luiz e a carruagem do príncipe D. Carlos.Ainda segundo o PÚBLICO de 6/8, a locomotiva D. Luiz (outrora a mais rápida do mundo) foi construída em 1862 para a Exposição Internacional de Londres, onde ganhou uma medalha de ouro. 1862 é também o ano em que D. Luís e D. Maria Pia se casam. No ano seguinte, nasce o fi lho D. Carlos, futuro rei de Portugal. Em 1864, e graças a Fontes Pereira de Melo, Portugal possuía cerca de 720 Km de rede ferroviária, e em 1894 o nosso país alcançava “um honroso décimo lugar entre as nações do mundo no que respeitava à densidade ferroviária por quilómetro quadrado, estando à frente de países como a Espanha, a Roménia, a Noruega (…)”, afirma Oliveira Marques. Os caminhos-de-ferro e as estradas vieram facilitar o comércio, e foram estabelecidos vários tratados comerciais, inclusivamente com a Holanda.

Agora vem a segunda parte da minha exposição: o comboio real português foi recuperado, os portugueses puderam vê-lo até Março no Entroncamento, antes de partir para a Holanda. Ora estas despesas, ainda de acordo com o jornal PÚBLICO, saíram do bolso dos holandeses!?: “As autoridades holandesas não pouparam esforços para recuperar o comboio que estava semiabandonado na secção museológica de Santarém (…) ficaram deslumbrados com o conjunto da composição e pagaram 55 mil euros pela sua recuperação e uma pequena fortuna pelo seu transporte em 4 camiões TIR.” Sinto vergonha… Éramos ricos, agora somos pobres.

Céu Mota
Santa Maria da Feira
(Fonte: Causa Monárquica )

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A VERSÃO HISTÓRICA DOS VENCIDOS

O livro do jornalista monárquico Joaquim Leitão relata a descoordenação militar, denuncia a fuga de ministros e até revela que o futebol serviu de senha aos revolucionários

Do depoimento de todas as testemunhas dos factos de Outubro é que tem de sair a confirmação da verdade, seja ela triste, seja ela consoladora." O jornalista Joaquim Leitão fez a reconstituição do golpe através da versão dos monárquicos que foi entrevistando, compilando no livro Diário dos Vencidos (publicado em 1911 e agora reeditado pela Alêtheia) os artigos que escrevera no jornal Correio da Manhã logo após a implantação da República.

Além de revelar os problemas militares, com o capitão Martins de Lima a sustentar que o plano secreto de defesa do coronel José Joaquim de Castro (que, neste livro, defende a sua estratégia, num curioso confronto de versões) "foi mais prejudicial à Monarquia que todo o clorato de potássio e dinamite dos carbonários, foi uma bomba única, fenomenal, que derrubou um regime e cujo estampido repercutirá para sempre na História de Portugal", esta obra também denuncia as traições, "coincidências que lembram cumplicidades, fraquezas que parecem vendas, desorientações que passam por cobardias".

No quartel-general, o ministro da Guerra, Raposo Botelho, "estava vestido à paisana, sentado à mesa, reconfortando-se com um caldo reparador". O seu colega Marnoco e Sousa, "o intemerato ministro da Marinha que o [primeiro-ministro] sr. Teixeira de Sousa foi pescar ao Mondego" (era professor de Direito em Coimbra), após entrar pela primeira vez na vida no Arsenal, saiu de lá, foi bater à porta de uma pensão e alugou um quarto. "O proprietário, carbonário, reconhecendo o ministro, deixou-o entrar e fechou-o à chave por fora."

Mas nada se compara "às atribulações do sr. Pereira dos Santos, último ministro das Obras Públicas da Monarquia, [que,] fugindo com o terror da chacina, pelos bairros excêntricos de Lisboa, são de encomenda para alegrar um chorão". O governante andou a mendigar um abrigo para se esconder ("prefiro morrer à fome do que fuzilado") e, quando, dias depois, chegou à sua casa no Estoril, passou várias vezes diante da porta com medo que estivesse ocupada pelos revoltosos, que, decerto, o executariam.

Perante isto, de pouco vale a explicação do capitão de infantaria que tinha fugido, ao ser interpelado por um oficial do Estado Maior: "Caiu ao pé de mim uma granada que me atirou um torrão com toda a força e que me magoou imenso. Está claro que me vim embora."

Panorama dos acontecimentos obtida junto dos que se esforçaram por defender o regime monárquico ou assistiram a tudo junto de D. Manuel II, o livro mostra imensos absurdos. O Campo Entrincheirado, por exemplo, "não podia intervir de maneira nenhuma", explicava anonimamente "um oficial de artilharia, muito conhecido pelo nome político da família, e antigo deputado, que pertencia à guarnição dum dos fortes" daquele complexo. "Eu explico. O Campo Entrincheirado compreende as baterias Rainha Amélia, Rainha Maria Pia e Duque de Bragança, na margem norte; e a bateria da Raposeira, na margem Sul; São Gonçalo, ao pé da Duque de Bragança. As da margem norte batem até Entre-Torres e fora da barra, sendo nestas que estão os obuses de 28. A Raposeira bate por cima da Trafaria. Ora, as baterias estão assentes para defender Lisboa de ataques de fora, e não de ataques de dentro. E como o campo de tiro, nestas peças de tiro indirecto, não abrange o quadro dos navios de guerra, o Campo Entrincheirado não podia bater cá para dentro. Para o Campo Entrincheirado incomodar os navios [republicanos] era preciso que eles saíssem a barra. Mas há mais coisas curiosas. Caxias tem obuses de 28 e tem lá um farol. Pois, como o farol podia cair, nunca se experimentou os obuses."

Razão tinha Martins de Lima quando propôs que se prendesse o Governo, esses "intrusos" que punham o quartel-general "numa confusão de endoidecer". "E hoje estou arrependido de não insistir até o general prender os ministros. Afinal, quem fez a República foram eles."

O livro está repleto de preciosidades históricas. "Este é do pontapé na bola", dito pelos marinheiros revolucionários, pois "muitas praças do cruzador Adamastor jogavam bem o foot-ball", queria dizer "este é do movimento".

E Joaquim Leitão aproveita para lançar uma crítica fora do contexto. "Com a mania que há entre os filólogos - que são os homens mais maníacos que se podiam inventar - de traduzir o intraduzível, os desportistas entenderam que deviam traduzir o foot-ball por 'pontapé na bola'."

Jornalista cuidadoso, para não ser acusado de criar boatos, confirma os depoimentos e, quando não atribui a autoria, esclarece logo os leitores. "Quem é este nosso entrevistado?... Pouco importa sabê-lo. Basta que a garantir a autenticidade possamos dizer, como podemos, que Paiva Couceiro, a quem lemos a entrevista antes de a publicarmos, a confirmou em todos os pormenores."

Joaquim Leitão só não podia suspeitar que um dos três tenentes do quartel dos marinheiros de Alcântara, que não aderiram à revolução e foram presos, seria um vulto notável nas décadas seguintes. Chamava-se António Sérgio.

(Fonte: DN)

REAL TERTÚLIA COMEMORA 19º ANIVERSÁRIO EM MONTEMOR-O-NOVO

Manuel Andrade Guerra
A Real Tertúlia Tauromáquica D. Miguel I irá pela primeira vez comemorar o seu aniversário - 19º - fora de Lisboa, desta feita no próximo dia 5 de Setembro em Montemor-o-Novo, por ocasião da tradicional Feira da Luz.

Haverá um grande almoço nos Claustros do Convento de São Domingos (junto à praça de toiros, onde nessa tarde se realiza a habitual corrida de toiros) com ilustres convidados-surpresa e a presença do Sócio de Honra, Luis Miguel da Veiga, que será homenageado pelo facto de se assinalarem este ano 50 temporadas desde a sua apresentação como cavaleiro amador, precisamente na arena de Montemor.

Na altura, será também feita a apresentação no Alentejo do livro "Cavaleiros - Heróis com Arte", de Manuel Andrade Guerra (presidente do Directório da Real Tertúlia, na foto), obra essa que é em grande parte dedicada à Família Veiga.

(Fonte: Farpas Blogue)

NOVO SÍTIO NA INTERNET - DUARTE DE BRAGANÇA.CO.CC

Site Duarte de Bragança : http://duartedebraganca.co.cc/

Foi criado um site dedicado exclusivamente a D.Duarte de Bragança e à Causa Monárquica, pretende-se com este site juntar tudo o que existe de informação monárquica dentro e fora das redes sociais. Também se pretende criar um ponto de referência para que por alguma razão a página do Facebook Duarte de Bragança desapareça as pessoas não percam a ligação com D.Duarte e através do Google seja possível voltar a encontrar a página de Facebook e as restantes redes. Basta carregar na página do site para aceder a praticamente todos os mais importantes sites e rss feeds sobre a Causa Monárquica, os últimos ajudam a que seja possível consultar num telemóvel.

Esperamos com esta solução responder aos fechos arbitrários de contas no Facebook referentes a D.Duarte de Bragança. Obrigado pelas mensagens de apoio que nos têm chegado.

Cumprimentos Monárquicos

Webmaster
(Fonte: Blogue "Esquerda Monárquica")

domingo, 29 de agosto de 2010

O EXPRESSO E A RESISTÊNCIA CLANDESTINA PORTUGUESA

Sábado de manhã, muito calor e um verão que vai a meio, sem que isso até hoje significasse praia. Lá me decidi ir de comboio até Carcavelos e para me entreter, recorri ao saquinho de plástico que entre muito desperdício de papel, contem o Expresso.

Já em viagem, estourou uma audível zaragata num grupo que digladiava argumentos acerca da actual situação política. Entre o mata e esfola, as sugestões de "pena de morte" e um infindável e esperado arsenal de "pneus a arder, bastões de ferro, caçadeiras e barricadas", decidiram-se pela necessidade de "acabar com isto". "Isto", diante de um agente da autoridade que se alheou completamente, não fazendo caso do chorrilho de insultos endereçados aos vários palácios do Poder.

Dizendo para mim o inevitável ..."a coisa vai mesmo mal, perdeu-se a compostura e o medo", tentei abstrair-me e abri o semanário, encontrando as notícias que fomos conhecendo ao longo da semana. A crónica de Miguel Sousa Tavares consiste numa variante elegante daquilo que ainda era possível escutar no berreiro que alegremente decorria uns bancos mais à frente, mas a novidade, consistiu nas duas páginas de destaque, brilhando pelo ineditismo do tema escolhido. Trata da "questão dos monárquicos" que são afinal, muitos mais do que aquilo que se possa pensar. Surgem de forma inesperada, cortam todo o espectro político e já muito longe do labéu de "ratos da Torre do Tombo", desempenham as mais diversas funções. Isto poderá espantar a maioria dos leitores do Expresso, sempre chamados a ler os piramidais e insondáveis desígnios de escutas jamais feitas, os inefáveis poderes presidenciais que existem em part-time, os tais procuradores à cata de algo mais e o fabuloso mundo dos terrenos, demolições, centros comerciais e contentores vários, além de casos futebolísticos que captem a atenção de uma franjinha mais desportiva.

Grande surpresa, essa... O Expresso está verdadeiramente boquiaberto, ou então, é globalmente parvo parvo andando a "fazer de conta", ou para tudo ser mais plausível e elevado, resolveu-se a tactear o terreno. Já há uns anos, o seu director José António Saraiva o fez, mesmo que de forma indirecta e evocando o rival país vizinho.

Já paira entre todos, aquela sensação de que o país precisa e quer algo de novo. Que corte cerce o legado das últimas duas décadas, mas não perturbe a tranquilidade palradora de todos os nós. Assim, talvez seja esta uma das interpretações a dar às imprevistas páginas centrais do Expresso.

Afinal, é uma "surpresa" que não o é, até para os mais desatentos. Embora disso não se fale, "eles" existem em todas as famílias, todos os partidos, locais de trabalho e sobretudo, irritam precisamente aqueles que se sentem donos da vontade alheia. Enfim, estão por aí, silenciosos, dificilmente mutáveis e de uma persistência estóica, sabendo bem qual a sua primeira fidelidade acima de qualquer clube, grupinho debicador de acepipes ou leituras.

Existem mesmo. Mas qual é a surpresa? Não são uma "meia dúzia" de milhar, nem uns excêntricos de estranhas falas e vetustos almanaques debaixo do braço. São gente que todos têm ao lado, muitas das vezes sem que disso se dêem conta.

Não são afinal os monárquicos portugueses, o mais subterrâneo e teimoso movimento clandestino de resistência em Portugal?

Nuno Castelo-Branco
(Fonte: Estado Sentido)

ENTREVISTA A S.A.R D. ISABEL DE BRAGANÇA, PELO CORREIO REAL DE JUNHO DE 2010

S.A.R. Dona Isabel de Bragança Princesa Real e Duquesa de Bragança, nasceu na freguesia de Alvalade, Lisboa, em 22 de Novembro de 1966.

É a XXIV Duquesa de Bragança pelo seu casamento com Dom Duarte Pio, Duque de Bragança e actual Chefe da Casa Real Portuguesa. D. Isabel de Bragança viveu entre Portugal e Angola até 1975, quando a sua família se mudou para São Paulo, Brasil.

Estudou na escola jesuíta de S. Luís, em S. Paulo, até 1988. Em 1990 obteve um MBA na Fundação Getúlio Vargas, na mesma cidade brasileira, e voltou para Portugal onde ingressou numa sociedade de gestão de patrimónios, área onde se especializou. A 13 de Maio de 1995, casou com o Duque de Bragança no Mosteiro dos Jerónimos, consagrando a partir de então os seus esforços à vida familiar. É a mãe de Dom Afonso (nascido a 25 de Março de 1996), Dona Maria Francisca (3 de Março de 1997) e Dom Dinis (25 de Novembro de 1999). D. Isabel é desde 1995 patrona de várias instituições de caridade, a maioria dedicada ao cuidado e suporte de crianças necessitadas e de pessoas vitimadas pela síndrome de Down. Além de Princesa Real e Duquesa de Bragança, é Grã-Mestre da Ordem de Santa Isabel, Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Grã-Cruz de honra da Ordem de Malta e Grã-Cruz da Ordem de S. Maurício e São Lázaro.

Qual é a análise que faz VAR da crise que atingiu a economia mundial há dois anos ?

Não houve controlo em certas operações financeiras e imobiliárias, nem por parte do Estado, através de uma entidade independente, nem das próprias entidades reguladoras do sistema financeiro. Além de se ter emprestado dinheiro sem o cuidado necessário. Em grande parte foi o que originou esta crise financeira nos Estados Unidos e em vários países europeus. Damo-nos conta de que tem de haver controlo por parte de uma instituição verdadeiramente independente e que não se possa corromper.

Além dos aspectos económicos e financeiros encontra VAR outras justificações para a ameaça que paira sobre as economias ocidentais?

No mundo ocidental e em Portugal, em particular, passámos a viver acima dos nossos meios, a consumir mais do que produzimos, tanto as famílias como o Estado. Com o euro, ficámos com a sensação de sermos como a Alemanha, só que sem a produção e o nível de preparação que há nesse país. Os historiadores há muito tempo que explicam que quando um povo enriquece subitamente sem melhorar o seu nível cultural, acaba por consumir essa riqueza e fica mais pobre e infeliz do que antes. Isso sucedeu em muitos países do "terceiro mundo" e infelizmente sucedeu aqui...

As famílias frequentemente desperdiçaram a riqueza com bens supérfluos, e o Estado, em alguns casos, fez o mesmo ... Temos mais quilómetros de auto-estrada por habitante, temos provavelmente o maior número de casas por família, enquanto deixamos cair as áreas antigas das cidades. Temos o pior nível de educação e formação profissional da Europa. Já fomos ultrapassados pelo Brasil.

Infelizmente, exactamente pelo problema cultural, parece que concordamos com essa situação em vez de exigir-mos melhor educação, mais disciplina e menos desperdício por parte dos governantes.

Que papel poderá ter o Ideal Monárquico na superação desta crise que o País atravessa?

Nos países europeus que têm reis e rainhas como Chefe de Estado esses problemas são em geral mais bem resolvidos. Em Portugal, quem adere ao ideal monárquico são pessoas com elevado sentido patriótico, que colocam o interesse nacional e os valores morais acima dos seus interesses pessoais imediatos.

Infelizmente a grande maioria dos portugueses adeptos da Monarquia não se associaram ainda às Reais Associações, e por isso não podem ser contactados, informados e convidados a participar na luta política que é necessário conduzir para salvar Portugal.

Por falar em Reais Associações, o que considera que tem corrido melhor e pior na sua dinâmica ?

O desenvolvimento das Reais Associações foi muito diverso de região para região, conforme a capacidade dos seus dirigentes e a militância dos associados. Em geral tem funcionado como fermento e testemunho, levando muita gente a encarar a alternativa monárquica como uma proposta válida para a qualificação da nossa vida política. Mas o facto de serem a representação oficial do Movimento Monárquico e contarem com o apoio do meu Marido, também as obriga a certa prudência. Ao estarem abertas a pessoas de todas as tendências políticas, não podem tomar posições vistas como sendo partidárias.

E a intervenção política dos monárquicos portugueses?

A intervenção política dos monárquicos pode acontecer de muitas maneiras. Há notáveis organizações de intervenção cultural e política criadas e dirigidas por monárquicos. Há tendências monárquicas nos partidos políticos, há organizações de estudantes, de profissionais monárquicos, etc. Mas é muito importante que todos estejam filiados numa organização nacional comum, pelos motivos que já disse. Quando, sobretudo nas regiões com menos população, as pessoas não se filiam e não participam, os dirigentes ficam sem meios humanos para cumprirem a sua missão.

É verdade que infelizmente algumas direcções como que adormeceram, ou "fecharam-se" sobre si próprias. Mas, pelo que sei, com os novos estatutos essas situações estão a ser ultrapassadas.

Em conclusão: as R.A. são aquilo que os seus associados quiserem fazer delas. Há acções com grande visibilidade, como a presença oficial nas feiras e exposições que temos visitado, graças à notável colaboração de generosos voluntários. Também organizam as nossas visitas oficiais às suas regiões, em colaboração com as Câmaras Municipais. Mas creio que deveria ser estimulada a "formação política" dos monárquicos, para saberem defender e explicar melhor os objectivos. E também para usarem técnicas de comunicação mais eficientes.

Cem anos depois da queda da Monarquia quais os principais argumentos para a restauração?

Acho que o mais óbvio será comparar o nível de desenvolvimento que aconteceu em todas as monarquias europeias, com o nosso atraso relativo a elas nos últimos cem anos.

E outros factores: o Reino Unido conseguiu manter uma ligação profunda com as antigas colónias através da Commonwealth, e a nossa república provocou a desastrada e trágica descolonização que vivemos. Quanto ao presente, se a democracia portuguesa pudesse contar com um Rei, ele contribuiria certamente para dar mais estabilidade e dignidade à política, ajudando os governos, sem ser suspeito de querer favorecer um partido ou alguns interesses económicos. Um Rei é de facto de todos, e não só dos que o elegeram, enquanto que em Portugal a percentagem da população que, realmente, elege o presidente chega a ser menos de 25 por cento...

Mas o mais importante é o seu valor simbólico: o Rei representa a face humana da Nação. E a Família Real simboliza a sua continuidade para além das transformações impostas pela história.

Como vê a evolução do papel das mulheres portuguesas nos últimos cem anos?

Creio que foi lento em comparação com o resto da Europa durante a Primeira e Segunda Repúblicas. Nesta Terceira República houve uma evolução mais rápida, mas há ainda muito caminho a percorrer. Penso que o papel da mulher é fundamental na sociedade e na política do país

Há pouco falou em sermos mais exigentes com a educação. Está VAR preocupada com o actual estado do Ensino em Portugal?

Os professores são quase heróis, pois a lei e a práctica actual tirou-lhes a autoridade necessária para manter a disciplina em muitas escolas públicas.

Quanto aos programas, foram muito influenciados por ideologias idealistas e utópicas, muitas vezes desajustadas da realidade. As consequências estão à vista, pois temos os piores resultados escolares da Europa. Creio que só as famílias dos alunos, devidamente organizadas, é que poderão pressionar os políticos à mudança necessária.Isso deveria ser negociado com os partidos antes das eleições e o Estado tem de ser fortemente pressionado. Senão, é sempre mais simpático dar boas notas e diplomas a todos, quer estudem e tenham conhecimentos quer não...

Os programas, portanto, não lhe parecem adequados?

Acho que os programas são excessivamente teóricos e com matérias a mais.

Quanto aos 90 minutos de aulas...qual é a criança ou o adulto que consegue concentrar-se 90 minutos em matemática, quimica ou outra matéria?

Talvez para algumas cadeiras menos densas...

Quando me dizem que isso acontece porque em algumas escolas é mais tempo para que os alunos se acalmem e se concentrem, então acho que cada escola devia ter a liberdade de decidir a duração das aulas, conforme a necessidade dos seus alunos.

Estão a criar-se graves problemas à vida e ao crescimento das crianças.Para além de que elas precisam de tempo livre para brincar e practicar actividades desportivas e outras.

É simbólico que quando se procura afastar os jovens da educação moral torna-se obrigatória a participação nas aulas de "educação" sexual - apesar desses programas serem contrários às convicções da maioria das famílias. Muitos pais nem suspeitam o que lá se ensina às crianças...

Em relação ao nosso Príncipe e Infantes como faz VAR para superar as insuficiências do sistema de ensino?

O meu marido e eu acompanhamos diariamente os estudos dos nossos filhos e tentamos ajudá-los a ultrapassar certos aspectos menos felizes dos programas.

João Távora

Duarte Calvão

(Fonte: Monarquia Portuguesa )