terça-feira, 3 de agosto de 2010

MARAVILHA FATAL DA NOSSA IDADE: EVOCAÇÃO DO 4 DE AGOSTO DE 1578

El-Rei Dom Sebastião, o Desejado, «maravilha fatal da nossa idade».

No dia 4 de Agosto de 2010 cumpre-se o 432.º aniversário da Batalha de Alcácer-Quibir (que teve lugar no Wed El-Mahzen perto de Ksar El-Kebir, em 1578). 4 + 3 + 2 = 9 = Ø

Tombou aí El-Rei Dom Sebastião, O Desejado, Galaaz da Pátria, vulto maior da nossa História. E com Ele tombou PORTVGAL. Se tivesse triunfado, teria sido aclamado (até hoje) como um dos maiores Reis de Portugal e da Europa. Mas tombou, vilmente traído de muitas e desvairadas formas. É, portanto, um monstro, um louco, uma aberração.

Praticamente tudo o que se diz e se ensina sobre Dom Sebastião é fantasia quando não mentira. Afinal a História é escrita pelos vencedores. E os vencedores em 1578 foram os castelhanos, como estava previsto e como foi maquinado. Os mouros — que ainda hoje celebram a “vitória” do 4 de Agosto (eu sei, estive lá na planície do El-Mahzen com 24 anos, a idade do Rei quando tombou e assisti às comemorações efusivas do 405.º aniversário da batalha) — não valiam muito, estavam divididos e foram de facto vencidos. Os seus chefes morreram na batalha. 4 + 0 + 5 = 9 = Ø.

A nós venceu-nos a irracionalidade, a pusilanimidade, a traição e a proverbial desorganização portuguesa (as riquezas descomunais de Vera Cruz e das Índias fizeram de nós, em pouco menos de um século, um Povo pouco audaz e pouco ágil).

Quem queira saber mais sobre este Rei trágico e exemplar leia e informe-se. Não é difícil. Os testemunhos fidedignos, coevos e dos nossos dias, abundam.

Quem queira ver o Desejado em efígie só tem de ir à estação de comboios do Rossio e olhar para o pórtico e para a pequena figura de menino apoiada no escudo de Portugal.

Quem queira ver a urna onde NÃO repousam os seus ossos (... si vera est fama ...) só tem de ir ao transepto dos Jerónimos.

Evocando este dia, que de tanta esperança foi para PORTVGAL, aqui ficam dois testemunhos do tempo:

Luiz Vaz de Camões, Os Lusiadas, Canto I
 
Estandarte carmim do Senhor Rei Dom Sebastião, o Desejado

6

E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antígua liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7

Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

9

Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10

Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,

...

15

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que pelo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras, e do Oriente os marços,

16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tethys todo o cerúleo senhorio
Tem para vós por dote aparelhado;
Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.

17

Em vós se vêm da olímpica morada
Dos dois avós as almas cá famosas,
Uma na paz angélica dourada,
Outra pelas batalhas sanguinosas;
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos tem lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.

18

Mas enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Para que estes meus versos vossos sejam;
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.

Chronica de Elrei D. Sebastião, por Fr. Bernardo da Cruz; Publicada por A. Herculano, e o Dr. A. C. Payva, Lisboa: 1837; De uma falla que elrei fez aos seos, antes da batalha. capitulo LXIV, pp.250-5 — excerto

Dom Sebastiam por graça de Deos, Rey de Portugal, Apparecido et Prophetizado.

E certifico-vos que se me buscardes, vos hei-de apparecer diante de todos os esquadroens, e se me naõ achardes, entendei que andarei entre o imigos;

por isso, tende-me por companheiro fiel, que tanto hei-de aventurar minha pessoa na conservaçaõ das vossa vidas, como por honra da victoria.

Se eu morrer nesta batalha, tende-me por ditoso, pelo premio das almas que meu zelo merece, e a fama que espero deixar em maõ de barbaros infieis por honra da cruz:

huma só cousa podeis sentir de minha morte, que será perderdes hum rei amigo, obrigado a vos fazer mercês e honras por o amor com que me seguistes, e alegria com que estais offerecidos a morrer por amor de Deos e meu.

A Deos peço, com os olhos no ceo, nesta ultima hora hora de morrer, vos pague a todos esse zelo; porque, se eu vencer, todos no premio das mercês sentireis em mim o muito que vos amo.

...

Lux perpetua luceat ei.

4 do 8 de 1578 = 4 + 8 + 1 + 5 + 7 + 8 = 33; 3 + 3 = 6
El-Rei Dom Sebastião ocultou-se com 24 anos: 2 + 4 = 6
Nasceu em 20 do 1 de 1554 = 2 + 0 + 1 + 1 + 5 + 5 + 4 = 18; 1 + 8 = 9 = Ø
20 do 1 de 2010 = 2 + 0 + 1 + 2 + 0 + 1 + 0 = 6
4 do 8 de 2010 = 4 + 8 + 2 + 0 + 1 + 0 = 15; 1 + 5 = 6
1554 --> 1 + 5 + 5 + 4 = 15; 1 + 5 = 6
1578 --> 1 + 5 + 7 + 8 = 21; 2 + 1 = 3
6 + 3 = 9 = Ø, q.e.d.

Para o Tó Zé Maya, para o Paulo Borges, para o Pedro Ayres de Magalhães e para o Paulo Teixeira Pinto.

Haja Estirpe, haja Império!

Valete, fratres!

(Fonte: António Emiliano no Facebook)

COISINHAS DO "ESQUEMA"

Os esquemáticos continuam a fazer de conta, não perceberem a forma de funcionamento da Monarquia Constitucional. Coitadinhos, tão ingénuos... Como se os chapéus de D. Maria Pia fossem pagos pelo Estado?! Continuam a fingir nada saber acerca da manutenção durante mais de setenta anos, da verba estipulada para o Palácio Real. É claro que não lhes convém dizer pevide, acerca da manutenção dos serviços de representação do Estado, das viagens oficiais que eram pagas pelo bolso particular do monarca, assim como uma boa parte das despesas das visitas estrangeiras a Lisboa. Enfim, os truques do costume. Já agora, bem podíamos começar a espiolhar as continhas debitadas pelo Palácio de Belém, para sabermos onde se gasta o precioso dinheirinho.

Deve ser para distrair as atenções dos 21 milhões/ano para o actualmente muito activo sr. Cavaco e os outros (quantos? quantos?) reservados para os ex, os actuais "passivos". Em matéria de centenárias habilidades, ficamos por aqui.

Nuno Castelo-Branco
(Fonte: Blogue "Estado Sentido")

SER MONÁRQUICO É UM SENTIMENTO E UM ESTILO DE VIDA

José Cid, Pedro Graciosa e João Carvalho são defensores da causa monárquica

Os monárquicos com quem O MIRANTE falou não pertencem a reais associações e não votam no PPM porque entendem que a monarquia não tem nada a ver com partidos.

Chama-se Pedro Figueiredo mas é conhecido por Pedro “Graciosa”. Apelido que usa por ser filho do marquês de Graciosa. O cabo dos forcados de Santarém confessa que nunca impôs que o tratassem pelo título monárquico e, apesar de ser politicamente de direita, simpatizante do PSD, é um defensor dos ideais da monarquia. Não pertence a nenhuma associação monárquica, mas considera que se o país tivesse um rei “acabava-se com muita pouca-vergonha”. Ser monárquico é uma forma de estar na vida, é ter outra visão da sociedade e dos seus problemas, como confessam outros defensores da causa como José Cid e João Carvalho, com quem O MIRANTE falou.

Numa coisa estão todos de acordo. Nos países onde está instituída a monarquia há mais respeito pelas instituições. “O rei é uma figura respeitada, mais que um Presidente da República”, considera Pedro Graciosa. “O rei moraliza o sistema e o Presidente da República é mais um corta-fitas sem grandes poderes”, realça o cantor da Chamusca, José Cid. Enquanto para o actor João Carvalho que reside em Alverca, concelho de Vila Franca de Xira, o representante monárquico pode ser um factor de união da população e das instituições nacionais.

Ser monárquico não é ser marialva, defendem. Isso tem mais a ver com as características de cada um, o meio de onde vêm e a personalidade, do que propriamente com a ideologia. Na relação com a República um monárquico não sente grande influência por defender a existência de um rei no país. “A influência tem mais a ver com a minha forma de estar e de encarar as coisas”, sublinha João Carvalho. O actor, que também não pertence a nenhuma associação real, foi buscar a sua veia monárquica ao avô que era oficial da guarda do Rei D. Carlos. Depois da implantada a República meteu-se em intentonas pela restauração da monarquia e foi preso cerca de 30 vezes, conta João Carvalho.

Nenhum destes monárquicos é filiado no Partido Popular Monárquico nem vota no PPM, porque entendem que a causa monárquica é um sentimento que não tem nada a ver com partidos. E no entender de Pedro Graciosa quem tem um título monárquico deve utilizá-lo sem snobismo, “sem caganças”. Dá como o exemplo o pai, que é uma pessoa simples e que sentava com ele à mesa os empregados para tomarem as refeições. Um monárquico deve ser uma pessoa próxima do povo. É ele próprio quem faz questão de se catalogar: “Sou patriota, gosto de mulheres e de vinho, sou aficionado e não sou maricas. Sou contra o aborto e as drogas”.

José Cid, representante de dois títulos (o avô era barão do Cruzeiro e o tio-avô era visconde de Lagos), é monárquico assumido há dez anos, quando começou a perceber que uma monarquia é um sistema mais cultural. “Olhem para os países que são monarquias e vejam que são os mais civilizados”, sublinha o cantor. Uma ideia com a qual concordam Pedro Graciosa e João Carvalho. “Se Portugal tivesse um rei este não permitia que um ministro da Saúde fechasse urgências hospitalares”, conclui José Cid.

(Fonte : O Mirante Online)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O LOBO A TOMAR CONTA DOS CORDEIRINHOS

O Professor António Reis Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano e eminente socialista foi o escolhido para dar chancela “científica” à mini-série de ficção histórica da RTP a emitir em Outubro por ocasião do centenário da implantação da República. A afinal o centenário é um tacho e a república um banquete entre amigos. Uma bestialidade que mete nojo.

João Távora

(Fonte: Blogue da Real Associação do Médio Tejo)

INTERVENÇÃO DE S.A.R., DOM DUARTE EM SERRALVES

Aceitei este honroso convite de um debate com o Sr. Prof. Arquitecto Souto Moura por considerar que, embora seja um leigo na matéria, sou um utilizador, um consumidor atento do trabalho dos arquitectos e urbanistas.

Lembro-me bem que, quando era criança, estranhava e lamentava o facto de as construções modernas nunca terem a beleza das antigas, e perguntava aos crescidos porque era assim?

Normalmente respondiam-me que tinha que ser assim porque hoje já não se sabia construir como dantes. Alguém disse-me até que desde que a república tomou conta de Portugal perdeu-se o sentido da harmonia, pois o importante era a revolução. Outros diziam que a harmonia era o reflexo da obra de Deus e agora Deus tinha sido expulso da nossa sociedade.

Com este tipo de influências na minha infância não admira que as tendências reaccionárias se tenham entranhado no meu subconsciente de então...

Mas com o passar dos anos e a adolescência, pus em causa muito do que me disseram na infância e procurei perceber a beleza da arquitectura moderna. E descobri que se tratava às vezes não era de construir casas mas sim belas esculturas que servissem também para lá viver e trabalhar. Ainda hoje fico deslumbrado com a perspectiva da avenida dos ministérios em Brasília e com a beleza dos seus palácios e da sua Catedral e da Igreja de D. Bosco! E sob essa perspectiva tenho que admirar muitas das obras dos nossos arquitectos contemporâneos portugueses...

Não tenho dúvidas de que a arquitectura, para além de ser uma técnica é sobretudo uma arte, e é sem duvida a única arte realmente importante para a nossa vida.

Ao contrário da pintura, da música, etc., as quais podemos escolher ou evitar se nos desagradam, nós não podemos fugir, não podemos evitar o resultado da obra dos arquitectos, que na verdade molda o futuro das comunidades humanas que lá vivem

Durante milénios a arquitectura foi fruto da cultura dos povos.

Quem construía eram artesãos que iam aprendendo com os seus mestres.

A extraordinária arte dos construtores de catedrais, castelos e palácios foi preservada e desenvolvida pelas Corporações de pedreiros livres cujos mestres ensinavam o que sabiam aos seus alunos e circulavam por toda a Europa.

Instituições semelhantes existiram em todas as grandes culturas do velho e do novo mundo, no Oriente e no Ocidente.

Como em outros aspectos da vida, a industrialização pôs em causa muitos dos valores das sociedades tradicionais.

No séc. XX vimos desaparecerem muitas culturas esmagadas pela globalização.

Felizmente assiste-se hoje a uma reacção, e pela primeira vez de há muito tempo, as elites culturais aceitam essa reacção como justa, em vez de insultar os seus militantes com epítetos tais como retrógrados, reaccionários, contra-revolucionários, etc.

Felizmente esta reacção é uma bandeira das esquerdas políticas, desiludidas com o marxismo e inseguras quanto ao significado do socialismo..

Os partidários da globalização encontram-se hoje entre os devotos da “religião” fundamentalista do progresso universal e entre os mais entusiastas apoiantes do capitalismo liberal e apátrida.

Estranhamente os intelectuais de esquerda em Portugal só não contestam ainda a globalização em matéria de arquitectura.

Será que esta atitude está relacionada com a origem ideológica do modernismo?

O movimento modernista faz parte da corrente ideológica socialista que pretende criar um homem novo cortando com as raízes culturais que transmitem todos os vícios e comportamentos do passado: religião, família, estrutura económica e forçosamente arquitectura.

O socialismo hoje é basicamente uma doutrina moral que pretende acabar com as injustiças sociais e lutar pela igualdade de direitos entre todos.

A vontade de despertar o proletariado para a luta de classes está na origem do urbanismo social do séc. XX.

Pela primeira vez na Europa a população das cidades foi dividida em bairros conforme a sua condição económica.

Os mais pobres vivem em “ghetos”, a burguesia remediada na cidade tradicional e os ricos vão viver para condomínios fechados.

Mas as consequências dessa lógica urbanística foram desastrosos para as suas vítimas...

Em toda a parte os chamados “bairros sociais” modernos são focos de infelicidade e produzem o comportamento marginal dos jovens e agravam as causas da pobreza.

Não só os regimes comunistas criaram a sua arquitectura simbólica, também os regimes fascistas o fizeram e até Portugal teve a sua arquitectura do «Estado Novo». Vários grandes arquitectos portugueses se entusiasmaram por essa tendência.

Em reacção surgiu entre nós o movimento liderado por Raul Lino.

Cito um artigo do Professor Cornélio da Silva:

“O conhecimento que adquiriu dos edifícios portugueses mais exemplificadores da nossa arte de edificar, privilegiou-o face aos seus contemporâneos nacionais, formados numa arquitectura burguesa dominante de importação francesa. A voz nacional corrente no domínio da arquitectura não reconhecia os variados modelos do património formal, tanto erudito como vernacular. Limitava-se a opor uma tradição construtiva despojada de finais do sec. XVIII que ainda perdurava, denominada de “estilo pombalino.”

Raul Lino de posse de uma cultura estruturalmente sólida e europeia, completada também por uma apreciável formação musical, conseguiu ver mais longe e de forma idealizada os factores estruturantes e condicionantes da expressão cultural portuguesa pela sua actividade de arquitecto. Na verdade soube ver e ler em Portugal os ingredientes que mais tarde uma grupo de pensadores igualmente viriam a identificar sob outras análises, como base de uma vocacionada identidade biológica, geográfica, social e política denominada Integralismo Lusitano.”

São a arquitectura e o urbanismo contemporâneos, na sua substancia comparáveis à complexidade dos resultados alcançados pelas outras épocas? É verdade que uma cidade inteiramente barroca não revela necessidade de uma presença gótica e que as cidades renascentistas dispensam os vestígios de outras épocas. Será que as criações recentes são detentoras da mesma capacidade?

Será que o movimento moderno, autoproclamado como expressão única da sua época, está à altura das suas ambições?

Será que a formidável criatividade mecanicista da era industrial encontrou realmente o seu equivalente, ao nível da arquitectura e do urbanismo?

Será que o urbanismo do séc. XX é apenas capaz de se revelar como um “suburbanismo” e este tornou-se como o próprio símbolo dos efeitos perversos de se “viver em sociedade” ?

Mas existirá realmente uma arte de criar e conceber as cidades de hoje ? Cidades capazes de nos atrair e seduzir, cidades que nós iríamos escolher para viver ? Existe, de facto, uma escolha em matéria de arquitectura?

Gostaria de citar o Arq. Léon Krier, que afirma:

“Existem actualmente, dois tipos de arquitectura. Uma pública, uniformizante, de estilo internacional, que pode ser interpretada como arrogante, mesmo provocadora; a outra privada, frequentemente baseada nos modelos regionais, procurando integrar-se de forma natural e harmoniosa nas diferentes paisagens.

A primeira é o produto da arquitectura oficial, das encomendas, e concursos “públicos” controlados: simbolizam-na em geral os grandes conjuntos, equipamentos e instituições (hospitais, escolas centros culturais, etc).

A segunda, resultante unicamente da promoção privada, inclui as habitações individuais e, mais recentemente, grandes conjuntos de lazer adaptados às regiões, seja isso na Virgínia, na Provence, na Nova Inglaterra, nas Bahamas, na Baviera, na Toscânia ou mesmo em Portugal.

Ora, perante esta realidade democrática maciça, os ideólogos, não se podem dar ao luxo de a ignorar, tomam uma distância denunciadora. Ao invés de investirem neste fenómeno da sociedade de maneira inteligente, de o civilizarem através da critica e da pedagogia, refugiam-se no desprezo.

No entanto nos países democráticos avançados a arquitectura de lazere do sector residencial não subsidiado é presentemente dominada por concepções que pertencem à arquitectura tradicional.

Os grades estaleiros urbanos de Richmond, Port Grimaud, Gassin Sea Side , Florence, Potsdam, etc., revelam que os grandes equipamentos modernos, ou seja, bairros inteiros derivados de uma arquitectura e urbanismo tradicionais podem ser realizados em prazos extremamente curtos, com capacidade de resposta às exigências da sociedade industrial desenvolvida. Aqui temos, talvez, as primeiras grandes realizações de uma modernidade serena e cívica, ou seja, não alienante, nem Kitsch, nem agressiva.

A liberdade de escolha, a liberdade de expressão e o respeito pelas leis constituem as virtudes principais da democracia política. Uma pluralidade de estilos de vida, de credos e, portanto, de estilos de arquitectura e de cidade constituem a expressão natural deste conceito. Não pode existir um único estilo “democrático”, assim como não poderá existir um “partido democrático único”.

É um erro atribuir a responsabilidade do aspecto caótico das nossas cidades e dos nossos campos ao pluralismo democrático. Ele, por si só, também não exprime de forma alguma o fundamento pacífico, organizado e convencional da sociedade civil e não facilita o seu desenvolvimento harmonioso.

As diferenças de opinião podem conduzir a um conflito ou solucionarem-se num debate civilizado. A pluralidade de visões urbanísticas e arquitectónicas ao invés de tender para uma desordem generalizada, pode ser canalizada a fim de produzir uma pluralidade de cidades e aldeias extremamente diferentes na sua estrutura, na sua arquitectura, na sua densidade; cada uma segundo a sua própria unidade e harmonia. A sua especificidade.

A exacerbação das diferenças, por um lado, e a confusão das diferenças, pelo outro, constituem os limites extremos da virtude democrática. Democracia é sinónimo de, acima de tudo, convívio de diferenças e o seu desenvolvimento num quadro de tolerância. A existência de partidos contrastados é largamente aceite como base constituinte da vida política. Os partidos políticos não se encaram mutuamente como inimigos mortais, mas como representantes que procuram a realização de projectos políticos, por vezes opostos, sem pôr em causa a sobrevivência do sistema político. Cabe o mérito à Revolução Americana, pelo facto de ter instituído a tolerância como fundamento do debate democrático. Tolerância não implica o abandono de certezas: pelo contrário ela oferece às variadas preposições políticas e, por extensão , às distintas e diferenciadas concepções de cidade e arquitectura, a sua oportunidade de realização de forma coerente, sem compromisso depreciador.

Neste final do séc. XX, o pluralismo arquitectónico parece revelar dezenas de anos de atraso em relação ao pluralismo político.

A própria configuração das cidades é uma questão de escolha e não de fatalidade; aqueles que pretendem o contrário optam por não reconhecer que o aspecto desordenado das nossas cidades não se deve a um “laisser-faire” desenfreado, mas à materialização duma ideologia errada de planificação. A crise das periferias constitui uma ilustração trágica disso.

O vazio teórico e prático criado durante 50 anos de dogmatismo devastou tanto os espíritos como as cidades. Ao nível da teoria da arquitectura, os novos dogmas da incerteza, da ironia, da desconstrução, da ruptura, da descontinuidade e do substituível opõem-se a todo o pensamento lógico e explícito.

Aristóteles afirmava que a democracia não constitui uma forma de governo ideal, mas que ela é, em todo o caso, preferível à tirania. É necessária uma grande pluralidade de arquitectos, comparável à imagem dos meios políticos que se toleram e organizam, para garantir a saída do actual caos das cidades e das mentalidades.

Se o desenvolvimento da democracia cultural parece mais lento do que o da democracia política, as suas manifestações concretas naquilo que se refere à arquitectura, tornaram-se de tal forma evidentes que é impossível ignorá-las.

Com efeito, pode-se afirmar que a diversidade na concepção da cidade e da arquitectura constituem um complemento e uma ilustração necessária à diversidade de expressões políticas.

A modernidade arquitectónica não pode ser um fenómeno unitário e indivisível, mas inclui manifestações contrárias, contraditórias, em todos os campos pluriformes.

A única certeza que podemos ter quanto à arquitectura futura é a de que o reino da democracia de partido único foi deposto.”

Este pluralismo incontornável não conduz necessariamente as cidades ao caos; ele contém o germe de uma liberdade de escolha fundamental.

Se a existência de grupos de pressão que procuram influenciar o processo de decisão em matéria de arquitectura e urbanismo é aceite como um facto, desconhece-se a existência de um grupo de acção cívica que procure influenciar o “design” de aviões, frigoríficos ou de cadeiras de dentista. A autoridade das profissões que cumprem as suas promessas não é contestada senão raramente.

Com efeito, a reivindicação de intervenção constitui uma declaração de desconfiança dirigida apenas ao modernismo, pois não existe um movimento de crítica, contestação e protesto contra a arquitectura tradicional. Os arquitectos atribuem a responsabilidade dos terríveis insucessos do pós-guerra ao facto de que teriam apenas influenciado uma ínfima parte da actividade de construção.

Aqui ignoram-se dois factos importantes: se os arquitectos tivessem controlado integralmente o mercado de construção – como era o caso na Ex-União Soviética e nas cidades novas -, os efeitos do modernismo teriam sido ainda mais graves; nas grandes culturas arquitectónicas do passado, a maior parte dos edifícios domésticos não era projectada por arquitectos, mas por mestres construtores seguindo os parâmetros do costume. A autoridade moral e artística dos arquitectos não era contestada pois os seus modelos eram imitados, tanto pelos ricos como pelos pobres.

A autoridade da arquitectura tradicional, que perdura nos países democráticos, não pode ser justificada pela ignorância popular, por uma imposição autocrática ou pela manipulação psicológica. É uma tendência profunda do mercado, que transcende as flutuações dos gostos e das modas.

As culturas tradicionais desconhecem, tal como paradoxalmente é o caso nas democracias actuais, esse fosso intransponível entre cultura de elite e cultura comum.

Os gostos diferem em qualidade e refinamento, mas não na substância ou na forma. Não constitui uma ironia o facto de, em democracia, o gosto popular se encontrar mais próximo dos ideais formais, aristocráticos, do que certas modas artísticas liberais?

Um dos caso de sucesso da arquitectura contemporânea é o museu Guggenheim em Bilbao, e até é conhecida a expressão “Efeito Bilbao”, como exemplo da reanimação cultural e económica de uma cidade histórica.

Mas a verdadeira história não é conhecida...

A Câmara Municipal queria construir o museu numa zona histórica, mas o arquitecto Gehry recusou-se a alterar o perfil do “casco viejo” e escolheu uma zona suficientemente afastada da área histórica (onde aliás os edifícios novos são obrigados a seguir a arquitectura tradicional do bairro).

Ele escolheu uma zona sem “memórias históricas” pré-existentes, demonstrando um respeito pelo passado que em Portugal nem sempre é praticado pelos responsáveis autárquicos.

Hoje as visitas ao museu diminuíram muito, pois o que as atraía era a curiosidade pelo objecto raro, não o seu conteúdo; mas Bilbao melhorou globalmente devido a muitos outros projectos: saneamento do rio, um excelente metropolitano, centro de exposições uma exemplar obra de restauro dos bairros históricos.

É sabido que 80% dos turistas na Europa querem visitar cidades e bairros históricos.

Se o dinheiro gasto na Expo ou no C.C. de Belém tivesse sido investido, em parte, no restauro de Alfama, o impacto económico teria sido muito mais positivo.

Em Portugal os técnicos do IPPAR têm trabalhado com entusiasmo e dedicação no restauro dos nossos monumentos mas seguindo o critério de intervenções por vezes muito chocantes.

Defendem que “o contraste fica bem”.

Se alguém realiza uma viagem longa para visitar um castelo medieval, está interessado em sentir-se na Idade Média e não em ver as intervenções contemporâneas.

Bem sei que o IPPAR apoia-se na “Carta de Veneza”, criada em 1964 para dar uma base coerente e contemporânea à conservação e restauro dos monumentos antigos. Ela é para os monumentos antigos aquilo que a Carta de Atenas foi para o urbanismo, em 1931: um manifesto modernista.

Ela conseguiu de tal forma modificar as atitudes, que os seus princípios são hoje aceites como dogmas entre os especialistas, que não parecem questionar os resultados obtidos.

Em resumo: a Carta de Veneza diz que o restauro deve ser excepcional e que a consolidação de um monumento pode ser assegurada fazendo apelo a todas as técnicas modernas.

Artº 11 : a unidade de estilo não constitui um objectivo a atingir durante o curso de um restauro.

Artº 12 : Os elementos destinados a substituir as partes que faltam devem-se integrar harmoniosamente no conjunto, distinguindo-se das partes originais, a fim de que o restauro não falsifique os documentos da arte e da História.

Infelizmente, os resultados destas regras têm levado a que os restauros se tornaram num instrumento de conservação de ruínas e bocados e não das belas obras de arquitectura que se deveriam proteger.

Todos os edifícios precisam de restauros, e o facto de um monumento ou um simples moinho, ter sido negligenciado e caído em ruínas, não deveria impedir que fosse restaurado na sua plenitude original.

O Artº 15 diz: “todo o trabalho de reconstrução deverá ser excluído a priori. Os elementos de integração serão sempre reconhecíveis...

Ora para uma obra manter o seu carácter próprio e a sua unidade é necessário usar o mesmo tipo de materiais e técnicas que se usou na sua construção original.

De resto, quando se trata de restaurar edifícios modernistas, o critério é o de absoluta fidelidade ao desenho original...

Porque será que só os monumentos modernistas é que merecem este respeito ? Será por preconceito ideológico ou de classe ?

A Carta de Veneza transforma os trabalhos de restauro em actos de violação obrigatória, no caso dos edifícios pré-modernistas.

Parece-me tão absurdo como querer restaurar um quadro ou um móvel renascentista ou medieval, usando alumínios e plásticos, para “marcar a nossa época”.

É isto que estão a fazer aos nossos castelos e mosteiros.

Em vez de restauros temos “intervenções” que alteram o carácter do monumento.

E o prazer dos visitantes, que é o de fazer uma “viagem no tempo” é destruído em benefício da satisfação intelectual e do “ego “ dos técnicos e especialistas.

Em Castelo Rodrigo ouvi a revolta da população e dos autarcas perante as obras lá realizadas . Acusavam os técnicos de serem ditadores. Comentei isso com um jornalista local e, sem querer , provoquei grande descontentamento na direcção do IPPAR, expressa numa carta assinada por todos os responsáveis.

Espero que estas minhas afirmações de hoje sejam aceites como uma divergência de critérios e não como uma agressão a uma instituição cujos membros muito admiro e aprecio e que tem feito também muito de bom.

Em geral, as populações e os visitantes ficam chocados com estas experiências. O caso dos dois edifícios em forma de paralelepípedos que construíram dentro das muralhas de Sagres causou grande polémica internacional.

Outras agressões do mesmo género passam despercebidas.

Pergunto: será legítimo, em Democracia, alterar os nossos monumentos à revelia dos seus utilizadores e verdadeiros proprietários? Em países verdadeiramente democráticos os casos mais polémicos são geralmente resolvidos com recurso a referendos regionais; esta seria uma boa solução para o nosso caso, desde que ambas as partes pudessem expor as suas razões com o mesmo “tempo de antena “...

Mesmo em vilas impecavelmente preservadas, onde aos habitantes se exigem grandes sacrifícios para não alterar a traça das suas casas, o Estado permite-se alterar completamente a traça da localidade construindo uma pousada, uma escola, uma Câmara Municipal completamente desintegrados !

Nem vale a pena citar exemplos ... mas a nova torre em frente à Sé do Porto ou a fortaleza marroquina em frente aos Jerónimos são emblemáticos desta mentalidade , que considera que a nossa geração tem o direito de destruir a harmonia e as perspectivas dos monumentos e paisagens que fazem parte do nosso imaginário colectivo.

Espero que este encontro, que se deve à disponibilidade, que agradeço, do Sr. Prof. Souto Moura e da Sra Arquitecta Helena Roseta em dialogar com alguém que não pertence à profissão, e ao espírito de abertura e criatividade da Fundação Serralves, sirva para começar um diálogo entre os vários responsáveis e intervenientes pela arquitectura, urbanismo e restauro em Portugal, criando um confronto criativo entre as duas tendências que em todo o mundo dividem os responsáveis pelo sector.

Dom Duarte de Bragança

(Palavras proferidas por S.A.R., Dom Duarte no dia 22 de Maio de 2003 no início de um debate na Fundação Serralves, no Porto, com o Prof. Arq. Souto Moura)

domingo, 1 de agosto de 2010

“HOJE O GRANDE VALOR É A DEMOCRACIA, E SÃO OS REIS OS SEUS GRANDES DEFENSORES”

Dom Duarte de Bragança, Herdeiro do trono de Portugal se os portugueses restaurassem a Monarquia, mostra-se sempre disponível para servir o seu país e espera que os cidadãos de Portugal, assim como todos os da União Europeia, meditem bem no que significa votar a favor ou contra uma Constituição Europeia. O Duque de Bragança é um homem simples, que transmite confiança. Lembra com carinho os anos em que aprendeu espanhol lendo o ABC com seu pai, e abriu as portas da sua residência, em Sintra, ao nosso jornal para analisar a situação política em Portugal.

Neste momento de confusão política que se vive em Portugal, qual é a análise que faz? - Assistimos a uma falta de equanimidade por parte de alguns meios da comunicação social. Não há nada na acção do governo que permita afirmar que não tem legitimidade quando tem o apoio da maioria do Parlamento. Actua como actuaram os anteriores, tem coisas boas e más. Os portugueses votaram uma maioria parlamentar que apoia um governo que teve de tomar medidas impopulares que devem ser tomadas. A democracia só funciona com liberdade de informação e hoje, em Portugal, essa liberdade corre o risco de ser indirectamente condicionada.

Sente-se cada vez mais o peso dos “lobbies” em Portugal? - Sim, aumentou muito. Quem paga o funcionamento dos partidos políticos? O dinheiro do estado não chega para tanto, no caso de uma campanha eleitoral para as legislativas, e também para as presidenciais é preciso muito dinheiro.

Acha que há um vazio na democracia portuguesa? - Em primeiro lugar, há um vazio de informação e, por consequência, de participação. Apenas as eleições municipais são mais participadas, porque as pessoas sabem em quem votam e preocupam-se em encontrar as melhores soluções.

Pensou intervir de algum modo na situação política? - Dou a minha opinião sobre assuntos que considero de grande importância para o país. Defendo os valores fundamentais dos portugueses, entre os quais incluo a independência nacional e a soberania do Estado Lusitano.

Como é a relação entre a Casa Real e a República? - Em termos gerais, é muito boa. Os presidentes da República convidam-nos e vice versa. Colaboro com os governos, em particular com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a quem informo acerca de visitas que faço a países com os quais Portugal tem relações distantes.

Já alguma vez pensou candidatar-se à presidência? - O presidente Ronald Reagan propôs-me essa ideia uma ocasião. Expliquei-lhe que essa hipótese seria vista pelos portugueses como uma contradição da honestidade intelectual. Se eu digo que o sistema monárquico é melhor do que o republicano, independentemente das qualidades pessoais do Presidente ou do Rei, e depois aceitar participar numa instituição republicana, estou a contradizer-me.

Em Portugal há um grande respeito pela Casa Real de Espanha... - É claro que sim. Em primeiro lugar, porque acompanhamos o Rei desde pequeno e depois, pela evolução da Espanha, que foi fantástica, tendo em conta os problemas que herdou do passado. A Espanha conseguiu prosperar e alcançar um extraordinário nível de desenvolvimento.

Sente ou pensa que é o pai do futuro Rei de Portugal? - Só Deus sabe quando haverá uma mudança. Os países têm vida longa, vida de séculos, e por vezes, de um momento para o outro, a cultura política muda, as necessidades do povo mudam e pode sentir-se a necessidade de ter um Rei. É preciso que a minha família esteja disponível e preparada para servir o país numa situação dessas, se os portugueses assim o entenderem. Tal como o esteve meu Pai, eu estou hoje ao serviço de Portugal. E isto inclui os republicanos, porque os reis servem melhor todos do que os presidentes. As monarquias defendem os chamados “valores republicanos” da sociedade, isto é, a democracia, a independência de poderes e os direitos humanos, muito melhor do que as repúblicas.

Como vê o caminho da Europa no século XXI?- Penso que o problema da Europa é a avançada do materialismo e o retrocesso dos valores espirituais, o que pode ter consequências políticas muito graves a longo prazo. Por exemplo, o vazio demográfico que está a pôr em causa a população europeia, assim perdendo a sua essência. Outro problema é o egoísmo colectivo, que causa tremendos desastres ambientais. Se não mudarmos estes comportamentos, os nossos netos herdarão um mundo muito difícil.

O que acha dos últimos casamentos de príncipes europeus? - Em todas as épocas a Monarquia foi moderna. Na Idade Média, os reis eram soldados, depois defenderam a ciência, a cultura, a arte... Hoje estamos numa época em que o grande valor é a democracia, e os reis são os seus grandes defensores. É por isso que os casamentos reflectem essa tendência. Um símbolo da época que vivemos.

Que pensa da Constituição Europeia? - Foi apresentada como uma iniciativa que deve ser apoiada por todos os bons europeus. É necessário perceber bem o que estamos a eleger, e ninguém o explica. O voto, na ignorância, não é válido.

O trabalho da Igreja na Europa está a ser respeitado? - Nos dias de hoje, atacar religiões não cristãs, como o Islão ou o Judaísmo, é considerado grave. Mas atacar o Cristianismo, e o Catolicismo em particular, é como a caça livre, não tem limites.

(ABC, Madrid, 2 de Fevereiro de 2005 - Entrevista conduzida pelo correspondente Belén Rodrigo.- Tradução de Fernanda Leitão)

A REPÚBLICA VISTA PELOS SEUS CONTEMPORÂNEOS: ANTÓNIO CABRAL

António Cabral, advogado, político, jornalista, foi um dos que a 6 de Outubro de 1910 permanecia monárquico, ao contrário das hordas de adesivos que formaram os novos gabinetes ministeriais e o funcionalismo público do novo regime. Apesar de se manter fiel à Causa, foi arguto e mesmo imparcial cronista da época que se seguiu (como republicanos houve com as mesmas qualidades). Apaixonado camilianista e cultor das artes nacionais, é um dos grandes e últimos polemistas, em cujos textos cabia a lealdade e a honra, qualidades tão esquecidas nos dias de hoje.

Os seus textos, como o que se segue, são janelas abertas sobre a época conturbada do antes e depois da República.

E as suas análises políticas e sociais são de uma flagrante contemporaneidade e serviam para o século XIX, os conturbados anos da 1.ª República, como para os dias de hoje.

«Mas, exactamente porque assim penso, é que sou pela Monarquia e não pela República. Sou por um chefe permanente e não por chefes de tirar e pôr.

A Monarquia é o governo de um só, que plana acima e fora dos partidos, é o zelo pelo interesse nacional, que é o seu próprio, é a Tradição, é a glória de de anos e anos de conquistas e descobertas. Veja-se o que sucedeu na Noruega, quando esta se separou da Suécia. A maioria dos noruegueses optou, em plebiscito, pela Monarquia e deixou de parte a República. Foi assim que o príncipe Carlos da Dinamarca se viu chamado a ocupar o trono da Noruega, com o nome de rei Haakon, ainda hoje, felizmente, reinante. Com Sua Majestade tive a honra de conversar, quando ele, ainda Príncipe, esteve em Lisboa: era afável, delicado e pareceu-me dotado de altas qualidades. Guiada pelo seu Rei, a Noruega tem sabido equilibrar-se em meio do mais que desafinado concerto das nações.

A República é o governo de muitos, é a desordem, é o sistema que tem à frente um chefe eleito, em regra, pelo partido mais numeroso, e, portanto, a este subordinado, ou, pelo menos, para ele inclinado, politicamente. Aí estão os factos a demonstrá-lo. A República ilude o povo, dizendo-lhe que é ele o soberano, que é ele que governa, quando a verdade é que o pobre povo... o soberano, é espingardeado e metralhado pelos que mandam, quando tenta protestar contra escândalos graúdos e ilegalidades revoltantes. São ainda os factos que o provam.

Vêm dizer-me que o regime, monárquico em Portugal, padecia do vício de origem e por isso caiu; mas logo surge a contradição, quando os que se encostam a tal dislate afirmam que foram as lutas dos partidos e a desagregação destes que o derrubaram! Em que ficamos?... A queda da Monarquia deve-se ao vício orgânico do regime, o que eu nego, ou às ambições e lutas dos homens, como eu afirmo?. A culpa foi do Rei, que os republicanos assassinaram, vil e covardemente, ou dos que agrediam e injuriavam o Rei, fossem de que partido fossem?»

António Cabral, As minhas memórias de jornalista, [1948], pp. 17-18.

(Fonte: Centenário da República )