sexta-feira, 4 de junho de 2010

ENTREVISTA A S.A.R. O SENHOR DOM DUARTE SOBRE A IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA

O ANTI-REPUBLICANISMO DE ANTERO DE QUENTAL (PARTE 1)

A União Democrática Portuguesa nunca chegou a conhecer a luz do dia, extinguindo-se, como projecto, naquele ano de 1873, possivelmente em Abril, na sequência das divergências programáticas assinaladas. No entanto, a sua finalidade última continuará presente nas opções imediatamente posteriores do poeta, sobretudo nos seus esforços para impedir o avanço das ideias colecti vistas, para bloquear o crescimento do republicanismo e para convencer as classes laboriosas de que a mera mudança de regime não acabaria com as injustiças sociais. Assim, em Julho de 1873, voltava a defender ser urgente lançar as «bases do verdadeiro partido republicano-socialista, zurzindo entre tanto sem piedade as seitas tolas e visionárias, os declamadores chatos e a corrupção geral». E isto porque, em sua opinião, o pior que poderia acontecer era que «os declamadores e os pulhas que actualmente constituem a quase totalidade do grupo republicano» 787 lograssem conquistar o povo português.

Este anti-republicanismo não surpreende. Já em Março de 1873, isto é, na conjuntura em que se procurava lançar a União, receava que os «republicanos lunáticos» (nome por que era conhecido um grupo que, liderado por Oliveira Marreca, se reunia no Pátio do Salema) tivessem conseguido captar o apoio de Alexandre Herculano para um acto eleitoral: «Escrevo à pressa», noticiava a Martins, «por isso só sumariamente lhe direi que o Herculano, saindo da con cha agrícola [isto é, de Vale de Lobos], está entusiasmado por uma grande reforma, toda municipal, com bases democráticas (!) e, quanto posso conjec turar, a vinda dele agora a Lisboa tem talvez por fim entender-se com Marreca e c.a (que tratam de formar partido republicano) para esse fim788.»

Mas esta vigilância começou a dar um maior relevo aos movimentos da corrente federalista, onde, de um modo mais consequente, o radicalismo político se juntava ao positivismo e ao moDismo naturalista. Compreende-se. Este sector integrava Teófilo Braga e alguns antigos companheiros de Antero, e era o que tinha mais pretensões reformistas. Em 22 de Junho de 1873, criou o Centro Republicano Federal de Lisboa e lançou o jornal O Rebate, cujo primeiro número (29 de Junho) inseria o respectivo programa. O paladino da União Democrática Portuguesa reagiu imediatamente, acusando a iniciativa de querer caçar no seu próprio terreno. Daí O teor deste desabafo, feito ao amigo e confidente Oliveira Martins: «Envio-lhe o primeiro número dum jornal do Teófilo, que me mandou o [José] Fontana. É um documento! Que programa!, tiraram ao acaso frases do nosso e amalgamaram-nas com asneiras da própria lavra. Veja também o artigo de fundo, espécime Teófilo tout puro tolo e malévolo. Lá se insinua que os homens da evolução (somos nós) são meros sedentários e inactivos… Que diz a isto?, e que lhe parece duma república feita por esta boa gente?» 789

Com efeito, sob o entusiasmo da revolução espanhola e com a vis jacobina que alimentava o movimento, o articulista anónimo – Teófilo, segundo Antero – escrevia: «Temos porém um equívoco em que laboram os homens de boa-fé [referência a Antero e a Oliveira Martins], sedentários e apáticos: não poderá ser substituída a revolução pela evolução?» E a esta pergunta respondia, com os olhos postos na denúncia dos que desvalorizavam da questão do regime: «Não podemos opor às instituições anacrónicas, que ainda subsistem, a simples inércia da evolução. É preciso alguma coisa de mais forte; depois que se examinou a nau e se reconheceu que não estava capaz de navegar, em vez de deixá-la apodrecer sobre a areia meta-se-Ihe o machado e utilize-se o que tem préstimo para outros fins. É este processo lógico o que se chama revoluçã079o.»

A pedra-de-toque entre o republicanismo e o socialismo começava a tomar -se evidente. E, no terreno dos acontecimentos, Antero sentia-se aliviado com o facto de o exemplo de Castelar e de Pi y Marssall não se ter propagado a Portugal. Mas isso não afastava os seus receios. E que, como escrevia, ainda em 1873, «o pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república. Seria um 48, mas sem o talento, o entusiasmo, o idealismo do outro; um 48 chato». Saudava, por isso, a rápida passagem do «arrepio causado pela proclamação da república em Espanha». Mas, em sua opinião, o facto de, nos centros republicanos, não se encontrar «um homem nem uma ideia» tomava o movimento antidinástico ainda mais perigoso.

Este procedimento crítico foi-se definindo a um ritmo tal que, em Setembro de 1873, congratulava-se com a circunstância de a «fantasia republicana» estar «desfeita de todo no nosso grupo socialista», dando «por isso muitas graças a Deus». Todavia, tinha a consciência de que as suas ideias e acções passadas continuavam a suscitar equívocos quanto à questão do regime. No artigo «A República e o Socialismo» (1873) procurou esclarecê-las. O que não bastou, como se prova pelo desenrolar dos acontecimentos. Aquando do banquete comemorativo (25 de Março de 1876) da consolidação da III República francesa, foi convidado para participar no ágape congratulatório. «Sabe que», dizia, em evidente ironia, ao autor da Teoria do Socialismo, «há aqui grande faina de organização e reorganização de partidos: o republicano está finalmente constituído e com gente séria e tende a engrossar. Deu banquete e abriu centro [referência à fundação do Centro Republicano Democrático de Lisboa]. Ora eu fui convidado para o banquete, e não fui ao banquete; convidado para o centro, e não vou ao centro. Sou, pois, grande traidor! Como isto me aborrece e, por outro lado, estou convencido de que todo este radicalismo (os históricos e reforrninhos estão aqui estão republicanos) é absurdo, estéril, perigoso; como, ainda por outro lado, acho que é caso de consciência esclarecer sobre tudo isto os nossos amigos socialistas e preveni-]os contra a propaganda republicana que os trabalha; tomei uma resolução: boto folheto!»

Apesar de, no artigo citado, ter esclarecido o que pensava sobre as diferenças entre o socialismo e a república, sentia não haver sido compreendido. E a ameaça jacobina impunha a necessidade de se quebrar «com os republicanos, e eu estou resolvido a fazê-lo em voltando a Portugal [Antero encontra-se, então, nos Açores). Já esbocei para essa execução um folheto com o título: “Os Republicanos perante a República”». E, referindo-se ao grupo União Democrática Portuguesa, precisava: «urge que ninguém nos tome nem por jacobinos nem por comunistas.» Como não cumpriu aquele desígnio, três anos depois voltou a ele, mas novamente se ficou pelas intenções. Por conseguinte, continuou a sentir a necessidade de «botar folheto», isto é, de explicar à opinião pública como era socialista e por que é que, do «ponto de vista socialista, todos os partidos são estéreis, e como o repub1icanismo hoje e aqui é uma quimera. Digo por uma vez o que penso e saio duma situação equívoca que me incomoda», Fá-lo-ia num opúsculo que se iria intitular O Socialismo e os Partidos. Por razões que se desconhecem, mas que devem estar ligadas ao agravamento do seu estado de saúde e à sua ida para Paris, este texto também nunca conheceu a luz do dia. Em 1878, voltava a reagir contra as más interpretações do seu pensamento político: um pequeno grupo republicano-federalista, ou melhor, republicano -socialista (de Alcântara), propô-lo como candidato pelo círculo 98 (sê-Io-á, no ano seguinte, mas numa candidatura socialista); obviamente que não aceitou, tendo respondido «que achava equívoca a expressão republicano-socialista, e como este equívoco praticamente me parece perigoso, só aceitaria a dita candi datura com o carácter exclusivamente socialista, com toda a reserva da questão política e em completa isenção do movimento republicano actuaL.. Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja uma ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre socialista e republicano, e de sair de uma vez por todas dum equívoco que me pesa».

Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias
(Publicado no Blogue "Causa Monárquica")

FALECEU UM GRANDE MONÁRQUICO: JOÃO AGUIAR

Um grande Escritor e um grande Monárquico que desaparece. Que descanse em Paz. A Real Associação da Beira Litoral apresenta à sua familia votos de sentidos pêsames.

Além de livros históricos, escreveu séries infanto-juvenis e textos para a "Rua Sésamo". Morreu anteontem, aos 66 anos.


João Aguiar teve um percurso pouco lógico. No 4.o ano tirou 9 a Português, anos mais tarde tornou-se escritor. O primeiro livro veio depois dos 40; escreveu mais de 20. Ficou conhecido pelas séries infanto-juvenis como "O Bando dos Quatro", e tem mais livros para adolescentes que para adultos, apesar de ter começado a escrevê-los contra a sua vontade, de ser solteiro e de não ter filhos. Num texto que escreveu para o "Jornal de Letras" em 2005 dizia: "A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida - boa ou má, não importa para o caso -, devo-o aos momentos de não-glória que acabo de relatar." E a verdade é que os livros fizeram a sua vida. João Aguiar era um escritor na verdadeira acepção da palavra e caso raro: vivia exclusivamente da escrita.

Numa das suas últimas viagens, João Aguiar confidenciou a Francisco José Viegas que já não devia conseguir escrever o livro que sempre quis fazer: um romance histórico sobre a revolução de 1383, que levou o Mestre de Avis, futuro D. João I, ao trono. Estava certo. O cancro que o venceu ontem, aos 66 anos, não lhe deixou tempo para cumprir a sua última vontade.

Quem o conheceu diz que nunca escrevia ao acaso. "Era muito disciplinado e só escrevia sobre factos que conhecia. Não partia para a obra sem um grande trabalho de pesquisa e de investigação", recorda o escritor e amigo Domingos Lobo, que lembra ainda como, num primeiro contacto, a timidez de João Aguiar lembrava uma pessoa "antipática, algo convencida". Era preciso passar o muro para descobrir o contador de histórias de humor apurado, o cavalheiro que Alice Vieira descreve como "um príncipe". "Era atencioso, culto e muito divertido. Era um prazer conversar com ele." A escritora conheceu-o ainda nos tempos do "Diário de Notícias". Nas redacções, Aguiar era uma excepção entre colegas formados pela tarimba: tinha estudado Jornalismo em Bruxelas depois de completar o curso de Filosofia em Lisboa.

"Era o que chamamos um homem fino: educado e elegantíssimo", conta Mário Zambujal, que integrou juntamente com João Aguiar e outros cinco escritores um projecto coordenado pela Oficina do Livro. Apesar de monárquico e conservador, não o incomodava que muitas das piadas lançadas pelos restantes seis republicanos girassem à volta disso.

Poucas coisas o aborreceriam tanto como "o escrever e falar mal português". Talvez por isso nunca tenha rejeitado um convite para debates em escolas. Com uma condição: só ia se os alunos tivessem lido pelo menos um dos seus livros e estivessem preparados para fazer perguntas. "Tenho a certeza que ajudou muita gente na casa dos 16, 17 anos, a interessar-se por literatura, pela sua vivacidade a contar histórias e por escrever sobre história", afirma José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores que conhecia o escritor há 30 anos.

Da "Rua Sésamo", projecto em que chegou a coordenar a equipa de escritores, guardou a sua experiência mais difícil. "Em três minutos tínhamos de escrever uma história com princípio, meio e fim, monopolizar a atenção da criança e ao mesmo tempo ensinar alguma coisa."

Nos últimos meses João Aguiar retirou-se como quem se prepara para a morte. Afastou-se dos amigos e fechou-se no seu círculo. Há cinco anos tinha sofrido um ataque cardíaco e tinha deixado o cachimbo, cujo cheiro o tornava conhecido à distância. "Sabíamos sempre quando o João tinha chegado à redacção", recorda Alice Vieira.

(Fonte: Jornal i-online)

Até sempre João!

Conheci o João Aguiar ainda na década de 80. O João fora assessor de Gonçalo Ribeiro Telles no Governo da AD e fomos companheiros durante anos no PPM. Mais tarde, estivemos juntos na candidatura de Miguel Esteves Cardoso ao Parlamento Europeu e na criação do Movimento Alfacinha. O João era, tal como eu, um monárquico e ecologista, com uma visão humanista do mundo. Foi várias vezes candidato a eleições pelo MPT - Partido da Terra com a generosidade que sempre colocava nos projectos em que acreditava. Ultimamente via-o pouco porque o João gostava de estar em casa, na quietude "da linha". Vinha pouco a Lisboa, apenas o necessário e quase só por motivos profissionais. Há quatro anos encontrei-o na Feira do Livro de Lisboa e, logo de imediato, combinámos uma iniciativa editorial conjunta. Por razões várias, de que me penitencio, não lhe conseguimos dar a velocidade pretendida. O João era um grande escritor, com uma obra que ficará na história da literatura portuguesa.

Nascido em Lisboa, viveu a infância entre a sua cidade natal e a Beira, em Moçambique. Muito novo a mãe ensinou-o a ler para mantê-lo sossegado na cama, período em que germinou a sua costela de escritor. Com apenas oito anos, tentou ditar um livro de aventuras à irmã Maria João mas, com um elevado sentido de autocrítica, repetidamente ia deitando para o lixo muitas das obras que escrevia.Só depois dos 40 anos publicou o primeiro romance "A Voz dos Deuses", uma ficção histórica centrada na figura de Viriato. Foi apenas um começo tardio mas o João soube, e bem, aproveitar para recuperar o tempo perdido. Seguiram-se duas dezenas de romances em que ficou patente o gosto do João pela história de Portugal. Licenciado em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas, João Aguiar deixou a meio muitos projectos inacabados. O que ambos deixámos por completar causa-me neste momento profundo arrependimento por não o ter conseguido fazer a tempo. Talvez mais tarde... quem sabe... Desculpa João e até sempre!

publicado por Pedro Quartin Graça
(Fonte: Blogue "Corta-fitas")

quinta-feira, 3 de junho de 2010

HOJE: JANTAR ORGANIZADO PELA REAL CONCELHIA DE SANTA MARIA DA FEIRA

É JÁ HOJE:
Jantar Mensal da Real Associação da Beira Litoral
Sexta-feira, 4 de Junho de 2010 às 20:00
Restaurante Soletas, Paços de Brandão

Por sugestão da Real Concelhia de de Santa Maria da Feira o próximo encontro irá se realizar em Paços de Brandão no Restaurante Soletas. Vamos marcar presença para encorajar os monárquicos das Terras de Santa Maria!

Não é necessário reservar, mas se o pretender fazer ou para qualquer esclarecimento contacte-nos:
Telemóvel: 936565538

A Real Associação da Beira Litoral instituiu um jantar mensal que se realiza todas as primeiras sextas-feiras úteis de cada mês, pelas 20 horas. Este jantar visa reunir todos os monárquicos e simpatizantes da Causa Real, num agradável convívio, no sentido de partilharmos e aprofundarmos, não só a questão monárquica mas, igualmente, analisar e debater a sociedade e a cultura portuguesas, bem como o futuro e a posição de Portugal no mundo globalizado. Entendemos que a força e a vitalidade da Associação são os seus associados activos. A riqueza: a sua participação e o seu contributo.

Nessa ocasião, os interessados poderão ainda inscrever-se para participar no 16º CONGRESSO DA CAUSA REAL, que se realizará nos dias 19 e 20 de Junho na Cidade de Viseu.

O melhor caminho para chegar a Paços de Brandão é:
1) Na auto-estrada A29, sair em ESMORIZ-PAÇOS DE BRANDÃO
2) Na rotunda apanhar a direcção S. PAIO DE OLEIROS-MOZELOS-PAÇOS DE BRANDÃO
3) Anda-se poucos metros e, ao aparecer a placa indicando que chegou a Paços de Brandão, vira-se à direita, direcção CENTRO
4) Sobe-se uma rua de grande inclinação, passa-se por um parque à direita, e, ao chegar numa bifurcação APANHA-SE A ESTRADA DA DIREITA.

RESTAURANTE SOLETAS
Rua 2 nº 20 (Rua dois do cerrado)
Paços de Brandão

S.A.R. O SENHOR DOM DUARTE, "UM REI MODERNAÇO"

(Fonte: Revista "Flash" de 31.05.2010)

CORTES DE COIMBRA DE 1385

Se as classes política e intelectual dos nossos dias tivessem alguma abertura de espirito e fossem social e culturalmente menos complexadas, podiam ter colhido muito das ideias, dos saberes e das experiências que foram, ao longo dos tempos, forjando a identidade portuguesa e a nossa maneira de sentir e estar no mundo.

O “novo riquismo” europeísta das classes dirigentes, apoiado no diletantismo bacoco de uma “intelligentsia” esvaziada e de extracção recente, conduziram ao marasmo em que nos encontramos, de que só sairemos quando Portugal e os Portugueses se reencontrarem.

O Texto que se apresenta é bem o exemplo de como, em situação de crise, se escolhe um Rei e se reconstrói um Reino.

“Abertas as côrtes de Coimbra, o Chanceler João das Regras tomou logo a mão para falar, porque a ele tinha sido secretamente confiado o difícil papel de pôr fora de combate, em proveito do Mestre de Avis, os outros candidatos ao trono de Portugal.

Ocupou-se em primeiro lugar da candidatura de D. Beatriz. Combateu-a dizendo que a rainha de Castela era filha adulterina de D.Leonor Teles, por isso que nascera sendo vivo João Lourenço da Cunha; que D. Fernando e Leonor Teles eram ainda parentes em grau que não admitia dispensa, por isso que tanto D. Fernando como João Lourenço da Cunha eram trinetos de D. Afonso III; que, finalmente, não podia haver certeza de que D. Beatriz fosse filha do rei D. Fernando.

E, a fim de libertar de escrúpulos o espírito dos fidalgos que estavam ligados por juramento à causa de D. Beatriz, recordou a violação dos tratados por parte do rei de Castela, e que este estava fora do verdadeiro grémio da Igreja, por isso que reconhecia o papa de Avinhão, ao passo que o governo do mestre de Avis reconhecia o santo padre Urbano, o verdadeiro papa.

O auditório deixou-se arrebatar pela palavra ardente do douto chanceler, e os aplausos rebentaram de todos os lados da sala, especialmente quando ele apelou para o sentimento de nacionalidade, que devia levar todos os bons portugueses a repelirem a candidatura de D. Beatriz, que representava simplesmente uma absorção.

Triunfante da primeira dificuldade, João das regras passou a falar dos dois filhos de D. Inês de Castro.

Esta investida era muito mais difícil, não só porque era muito numeroso o partido da legitimidade, mas também porque o próprio mestre de Avis reconhecera o direito do infante D. João, filho mais velho de Inês de Castro. Mas João da Regras, com a sagacidade que lhe era peculiar, procurou atacar a questão pela raiz, e tratou logo de pôr em duvida a legitimidade do casamento de D. Pedro com D. Inês de Castro. Notou as inverosimilhanças que se davam entre o caracte resoluto de D. Pedro e o suposto receio de declarar enquanto seu pai fosse vivo, que D. Inês era sua legitima mulher; observou que não era crível que todas as pessoas que se dizia terem assistido ao casamento perdessem a memória do dia, mês e ano em que se realizou, excepto uma só, Estevão Lobato, cuja declaração devia avivar a reminiscência dos outros que foram presentes; estranhou que D. Pedro fizesse semelhante declaração só depois de transcorridos quatro anos sobre a morte de seu pai.

“E porque pensais que isto assim então foi feito? (São palavras que Fernão Lopes atribui a João das Regras). Porque em vida de el-rei seu pai, nem depois até aquele tempo, nunca ele pode haver dispensação do Papa, que lhe legitimou os filhos; então fez aquela publicação como vistes, por mostrar que eram lídimos, e valesse o que pudesse valer.”

Tendo preparado o seu discurso com uma sagacidade verdadeiramente notável, João das Regras ia subindo lentamente a escala dos efeitos, e de si para si rejubilava de ver que os seus golpes eram certeiros, e produziam o resultado esperado.

Portanto, fez notar que ainda que D. Pedro tivesse casado com D. Inês, o casamento seria ilegítimo, porque D. Pedro era primo co-irmão do pai de D. Inês de Castro, e ainda também porque D. Inês fora madrinha do Infante D. Luís, filho de D. Pedro e de D. Constança, o que constituía grave impedimento.

Estavam, pois, fora de combate D. Beatriz de Castela e os filhos de D. Inês de Castro, os quais, além da ilegitimidade da sua origem, tinham desservido a pátria em favor de Castela. Pelo que só restava eleger o mestre de Avis que, sobre ser de origem real, tinha defendido heroicamente a pátria em circunstâncias tão difíceis.

Ainda assim, a vitória de João das Regras não era decisiva, porque a assembleia estava dividida em duas facções: uma, que se inclinava para a causa do Infante D. João e era capitaneada por Martim Vasques da Cunha; outra, que advogava a causa do mestre e tinha por orador João das Regras e por leader Nuno Álvares Pereira.

Não se chegara ainda a resolução nenhuma, e a vaga parecia mesmo rugir ameaçadora, o que suscitou a Nuno Álvares a ideia de se desembaraçar violentamente de Martim Vasques. Mas João das Regras parecia tranquilo ao passo que Nuno Álvares se mostrava impaciente. Era que João das Regras tinha ainda de reserva um golpe terrível, que em ultimo caso vibraria triunfantemente.

Com efeito, em nova sessão das côrtes João das Regras pôs em acção a sua aartilharia de reforço, e preparou-se para ler uns documentos “que ele quisera calar”.

O primeiro documento lido foi uma carta do rei D. Afonso ao arcebispo de Braga pedindo-lhe a us interferência paraa que o papa negasse a seu filho D. Pedro, que andava “embevedo de amores”, a dispensa que ele solicitasse para casar com D. Inês de Castro.

Depois, João das Regras passou a ler uma caarta de D. Pedro ao papa, na qual lhe declarava que havia casado com D. Inês de Castro, não obstante o parentesco que tinha com ela, e lhe pedia que confirmasse o casamento, “em guisa que os moços ficassem legítimos”.

Em seguida, e depois de fazer sentir à assembleia a intensidade dos esforços que os embaixadores de D. Pedro empregariam junto da Santa Sé, para obterem a confirmação papal, João das Regras desenrolou um terceiro pergaminho, que passou a ler.

Era a resposta do papa à solicitações de D. Pedro.

Este documento, bem como os outros já referidos, vêm estampados na crónica de Fernão Lopes. Mas, a fim de não alongarmos fastidiosamente a narrativa, limitar-nos-emos a noticiar que o papa Inocêncio VI recusava categoricamente legitimar o casamento e os filhos.

Em vista destas provas, que tinham um grande valor, sobretudo se atendermos à época, o grupo que defendia a legitimidade do filho mais velho de Inês de Castro, alijou os seus escrúpulos, e fez causa comum com os defensores da candidatura do mestre de Avis.

Então, os prelados, fidalgos e procuradores dos concelhos foram oferecer ao mestre a corôa de Portugal. Outro qualquer havê-la-ia recebido a impulsos de alegria, sem procurar firmar-se cadaa vez mais no terreno. Mas o mestre de Avis sabia também preparaar efeitos, e alegou que “havia tais embargos assim no defeito de sua nascença, como na profissão que à ordem de Avis fizera” e, principalmente, que seria inconveniente que sendo rei fosse vencido por Castela, facto que a dar-se não desairaria nem o reino nem a ele, não passando de um simples cavaleiro. Por ultimo, que contassem sempre com a sua boa vontade quando se tratasse de defender a pátria.

A isto replicaram os prelados, fidalgos e procuradores dos concelhos instando para que aceitasse a corôa, porque de outro modo Portugal correria grande risco de cair nas mãos dos inimigos, “maiormente sismáticos e reveis” à Santa Igreja.

O mestre de Avis, que já não podia ser de futuro acusado de ambicioso, porque tinha dificultado a sua anuência, cedeu por fim, e tudo se preparou desde então para o acto solene de aclamação, sendo Nuno Álvares Pereira encarregado de dirigir os apercebimentos da festa.

Com efeito, o mestre de Avis foi aclamado rei de Portugal a 6 de Abril de 1385, tendo vinte e sete anos de idade.

Finalmente, a obra começada pelo povo acabava de ser coroada pelo clero e pela nobreza.

Sentava-se finalmente no trono de Portugal um rei que a vontade popular indicara e cuja candidatura a sua perseverança fizera triunfar.

Três elementos poderosos contribuíram certamente para o bom resultado da empresa: a firmeza do povo, a espada de Nuno Álvares e a provada sagacidade do Dr. João das Regras.”

(Luciano Cordeiro, História de Portugal, II Volume, Livro VI, pags. 343 a 345, Empresa Literária de Lisboa, 1876)
(Fonte: Blogue da Real Associação do Ribatejo)

HOJE: FESTA DO CORPO DE DEUS



A festa do Corpo de Deus é uma solenidade que começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada universalmente pelo Papa Urbano IV através da bula "Transitus", em 1264, dotando-a com Missa e ofício próprios. Terá chegado a Portugal provavelmente nos finais do séc. XIII e tomou a denominação de Festa do Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular da Euraristia é manifestada no 60º dia após a Páscoa e forçosamente numa 5ª-feira, fazendo assim a união íntima com a última Ceia, de Quinta-feira Santa.