(Fonte: Monárquicos Nortenhos)
domingo, 25 de abril de 2010
A VISITA DO PAPA A PORTUGAL
A visita do Papa vem estimular a expressão da essência da sociedade portuguesa.
De origem Cristã, a sociedade portuguesa preserva na actualidade, apesar de todas as perseguições, maioritariamente a sua crença religiosa.
Esta identidade claramente maioritária da sociedade portuguesa, é um direito histórico e simultaneamente moderno e actual, que foi renegado através do conceito de Estado laico e republicano.
O laicismo é assim um conceito republicano, que foi introduzido em Portugal desde 1820, que teve momentos de expressiva vitória e cujo intuito foi sempre determinado pelo objectivo político, de retirar um direito de influencia política à sociedade portuguesa.
O laicismo do Estado é assim apenas uma negação de um direito da sociedade, de forma torna-la mais permissiva a influências externas, à uniformização de conceitos e à diluição de identidades.
A extinção das Ordens Religiosas de 1834, as perseguições religiosas e os esbulhos património da Igreja de 1910, a declaração de Estado Laico e renegação da Concordata em 1975, são marcos particularmente significativos desta influência Maçónica, contra os direitos da sociedade portuguesa e a favor da dissolução da sua identidade.
O laicismo do Estado é assim, uma negação de um direito da sociedade.
Com ele arrastou muitos outros direitos da sociedade, neste conceito perverso do Estado dos cidadãos.
Direitos até de natureza patrimonial, de são exemplos um enorme conjunto de bens que o Estado se apropriou, da Igreja Católica e de muitas outras organizações da sociedade civil, que não passando de esbulhos à sociedade, muitos deles são carcaças em ruína, sinais evidentes do erro, deste conceito de Estado. Igrejas, Edifícios das antigas Juntas, Corporações e Federações, que este Estado não conserva, nem dá funcionalidade e até exige pagamento pela restituição da propriedade a quem tem direito e a quem está disponível para a sua recuperação e a dar-lhe o uso adequado.
O poder exclusivo dos cidadãos nesta concepção republicana de Estado, desrespeita a mais natural das concepções democráticas, que é a condição do exercício dos direitos de cada um, se condicionar aos deveres perante a sociedade.
A eliminação do enquadramento dos direitos da sociedade, nesta concepção republicana de Estado, entrega esses direitos ao poder discricionário do Estado, sobrevalorizando os direitos e os interesses dos cidadãos nas decisões e subjugando os direitos colectivos a essa concepção.
Pilares da sociedade, como a Família e o seu sentido, sofrem por esta via enormes fracturas destruidoras, mas também outros valores e direitos da sociedade, como o direito ao conhecimento do seu passado, o próprio território, a cultura genuína, as tradições e vivencias particulares.
A negação desta consciência social, é conseguida através da propaganda de uma associação de ideias, que são uma mentira e um grande embuste.
Associa-se Estado Laico e Republicano, a conceitos como democracia, modernidade e evolução, para através da sua repetição sistemática, evitar a percepção popular do logro de que estão a ser vítimas.
Matou-se o debate, mas o povo sobe preservar a sua essência de identidade.
O Estado Laico e Republicano, divorciado do povo, foi por ele derrotado.
O povo português, continua a manter uma profunda identidade própria, continua organizado numa sociedade maioritariamente cristã e católica.
A visita do Papa, será uma inequívoca expressão moderna, desta identidade histórica portuguesa, do povo português, que o receberá com entusiasmo, reconhecimento, veneração e na esperança de uma ajuda que induza ao reforço da sua afirmação.
“Pátria, Deus e Família” será de novo rezado em voz baixa.
Obrigado Fátima; Obrigado Papa…
De um agnóstico, mas português.
José J. Lima Monteiro Andrade
(Fonte: Blogue "Desafio de Mudança")
AOS QUE TRABALHAM E SOFREM
CAROS PROLETÁRIOS!
Nem eu sei, ao falar-vos em que medida as minhas palavras poderão inspirar-vos confiança.
Avalio como soa ironicamente, ‘quase a troça, esta palavra — felicidade, aos ouvidos de quem, neste Mundo, sofre da triste condição proletária! Vós a procurais com ‘afinco, naturalmente, mas ides seguindo, desde há muito, caminhos errados, atrás de falsos profetas, em quem tendes confiado.
Começastes por repudiar Deus e a Sua lei, dizendo que A RELIGIÃO É O ÓPIO DOS POVOS, quando aconselha paciência e resignação aos oprimidos. Se vós me pudésseis responder, perguntar-vos-ia onde e quando foi que a religião aconselhou resignação para com as injustiças sociais derivadas da falta de consciência e do escrúpulo dos patrões. Também ela alguma vez a terá recomendado para com o gatuno que nos quer levar a carteira, ou para com o perro, que procura filar-nos as canelas? Não se deve confundir os princípios cristãos com o comportamento dos que se dizem seus adeptos, e que provam, pelos seus actos, serem mais judeus do que católicos. Ao lado disto, afirmais também que A PROPRIEDADE é o roubo. Estou de acordo convosco em que propriedade e até a prosperidade de muitos, foi e tem sido obtida à custa de desonestidades.
Mas isso só prova que possuir é a tendência natural de todo o homem, e que, quando não se consegue alcançar a satisfação desse desejo por processos lícitos, ou a ambição incontida não se conforma com a lentidão destes processos, se recorre aos ilícitos.
Todo o homem quer possuir, para poder prover às suas necessidades, ser independente e livre. Em verdade, a propriedade seja do que for é uma condição essencial da liberdade. Só é inteiramente livre (humanamente falando) o homem que não precisa de alugar o seu trabalho. a pessoa que dentro do condicionalismo legal, faz o que quer, vai para onde quer e quando quer.
Como se consegue esta liberdade, senão pela posse de bens? E como conseguistes vós, até agora, a propriedade do vosso vestuário, da vossa ferramenta, do vosso mobiliário? Sem dúvida, à custa do trabalho. De facto, a propriedade é, em princípio, trabalho acumulado. E outros que conseguiram juntar o trabalho acumulado por pais, sogros, avós, etc., puderam alargar a sua propriedade a uma residência, a uma quinta ou herdade, a uma oficina, a um estabelecimento comercial.
Não desejais vós, que pouco ou nada possuis, qualquer forma de propriedade? Decerto. E isso não quer dizer que sintais desejos de roubar. O vosso abatimento deriva, exactamente, do facto de nada possuirdes de apreciável, como se infere da expressão que tantas vezes usais: uns com tanto, e outros sem nada»!
É exactamente este, o justo motivo da vossa indignação.
Muitos proprietários esquecem ou ignoram que têm uma função social a desempenhar, qual é a de auxiliar os desprotegidos e de fomentar a produção. A propriedade não é o roubo. Mas quando ela se fecha no seu egoísmo deixa de ser inteiramente legítima. O que é preciso, nos tempos que correm, é varrer o egoísmo, recordando a uns e ensinando a outros, os seus deveres, para se poder alcançar um equilíbrio tão necessário como urgente.
E não argumenteis com a «propriedade colectiva» dos socialistas. Isso é o mesmo que a não-propriedade porque o que pertence a todos, não é de ninguém.
Pois já o vosso amor à liberdade que vos levou desamparados para as forças do dinheiro, devido à dissolução em que consentistes, das vossas antigas organizações profissionais. Quando destes pelo prejuízo, fostes à procura de defesa, e começastes por vos enfeudardes à democracia que ouvíeis dizer ser o Governo do povo pelo povo. Breve vos desiludistes ao verificardes que ela era, reconhecidamente, o império das plutocracias e das oligarquias, mesmo quando, ou talvez, principalmente quando, — se afirma socialista.
E, explorando o vosso cepticismo alguns pretendem agora atrair-vos para o comunismo, para a chamada ditadura do proletariado, que não é senão a ditadura de um partido único, ou seja, da meia dúzia dos seus dirigentes. Digo-vos, porém, desde já todas as ditaduras, e portanto também aquela, são filhas legítimas da democracia, ainda que esta se recuse a perfilhá-las, sob pretexto de que não se parecem com a mãe. Mas entre ela e as filhas, nota-se apenas um diferença essencial: a democracia é a tirania do número; a ditadura é a tirania do … algarismo.
Compreendo plenamente a vossa angústia. A democracia deu-vos em teoria (só em teoria. . .) «liberdade para tudo» mas tirou-vos a garantia do pão quotidiano e portanto a base da autêntica liberdade. O comunismo oferece-vos a ração diária se fordes do partido) e mais nada, porque vos priva de Moda a liberdade. Mas a vossa inteligência afirma-vos que há-de haver uma outra ordem social em que o homem possa «possua em liberdade e com satisfação, o pão que arduamente, ganhou cotn o seu suor, porque isso é que é natural.
Pois tendes razão, caros proletários.
Essa ordem social, embora não instaurada em qualquer comunidade, existe, concebida pela inteligência, esclarecida à luz dos ensinamentos da história da Humanidade. É aquela que se baseia nos agrupamentos naturais do povo, especialmente na família (ordem político-administrativa) e no Sindicato (ordem económico-social). Não se trata de um sindicalismo revolucionário, com a greve geral» como arma principal, mas de uma modalidade de sindicalismo ,a , que outrora se chamou «reformista», fundado na colaboração cada vez mais necessária entre o capital e o trabalho.
É no seio dos seus organismos profissionais que a posição do trabalhador se há-de valorizar, e por meio deles, que intervirá na administração pública e na luta pelas suas liberdades e prerrogativas humanas e sociais.
O mito da LUTA DE CLASSES, do ódio mortal entre patrões e operários, está a entrar, felizmente, no campo das efemérides históricas. Baseava-se ela, em parte, nas aquisições da CIÊNCIA, do século passado, denunciando a luta pela vida e o triunfo do mais forte na existência dos animais. Mas a Ciência deste século já demonstrou que essa noção está longe de poder ser a regra em toda a Natureza, e talvez seja apenas a excepção, em vista da exuberância das associações animais, e principalmente do conhecimento das simbioses — verdadeiras afirmações de auxílio mútuo, com vista ao exercício das diversas actividades vitais.
Também o Homem não pode viver isolado. Ele é um ser eminentemente social. Daí o individualismo ser um erro político que já ninguém hoje defende com seriedade. O exemplo da vida nas associações animais condiciona uma modificação na mentalidade social, tendente a transformar a luta irredutível, em colaboração inteligente, e útil para todos. Estes três erros, entre outros, vos têm trazido divorciados de tudo o que é nacional, cristão, e mesmo profundamente humano.
Mas já verificámos que a religião, á-parte o seu caracter sobrenatural de reguladora das nossas relações com DEUS, é a grande consolação dos que, neste Mundo, são infelizes.
Esforce-se cada pessoa, cada classe, por melhorar a sua condição, à custa de todos os meios legítimos e lícitos; mas permaneça intacta, para os mal sucedidos, para os incapazes, para os espoliados, para todas as vítimas indefezas da maldade humana, a esperança de que na OUTRA VIDA, terão parte na reparação que lhes foi anunciada há dois mil anos, pelas bem-aventuranças enunciadas por Jesus Cristo.
Verificámos também que a propriedade, na sua essência é trabalho acumulado, e fonte, de riqueza e de produção, quando cumpre inteiramente os seus deveres sociais e económicos. Verificámos, por fim, que a luta de classes é um mito, e que dentro de cada espécie de seres vivos, a associação é a regra e o auxílio mútuo domina o panorama da vida. Também o homem é naturalmente inclinado à associação e a inteligência afirma-nos, que para um fim comum, e útil a todos, devera ser Conjugados os esforços de todos.
Estou, porém, ouvindo duas objecções: E quem nos garante que no campo da colaboração, a nossa posição de mais fracos, de menos influentes, não será sacrificada à ambição da outra parte, menos escrupulosa e mais poderosa?
E quem nos garante que a propriedade, para que nós contribuímos, acabará por reconhecer os seus deveres, e deixará de constituir um elemento de opressão para passar a apresentar-se , corno agente de progresso da colectividade? Tendes razão nas vossas objecções. A garantia é a base de todos os contractos.
Donde vos poderá, então, vir ela? Sem dúvida, do Poder, islo é, dos Governos. E para isso, não deverão estes ser susceptíveis de passar para as mãos dos poderosos das forças econômicas, dos ignorantes, dos maus, ou dos incompetentes. Garantida a vossa participação na vida administrativa do Estado, é preciso que o Governo supremo do agregado nacional não possa ser jogado aos dados, e que à Nação naturalmente organizada, corresponda um’ Governo também natural, e naturalmente transmitido. Ora dai vós à imaginação as voltas que quizerdes, e não encontrarei» outro nestas condições, que não seja o GOVERNO MONÁRQUICO.
Só o Rei que não deve o poder a nenhuma classe; que não provém de qualquer camada social: que não vai assumir funções sem estar para elas preparado; que. não precisa de criar amigos à custa da iniqüidade — pode ser o árbitro supremo, o vigilante da justiça, a garantia do cumprimento dos contratos, da execução das leis, da aplicação do castigo aos transgressores de má fé.
É por isso que nós, sendo sindicalistas e municipalistas, somos também MONÁRQUICOS.
O nosso monarquismo é mais uma consequência do que uma precedência. É também como conseqüência que nós vos convidamos a adoptá-lo. Meditai no que vos digo nesta resumida prátíca. E sede corajosos, desassombrados e inteligentes na resolução que. decerto, não deixareis de tomar. Nós não somos falsos profetas. O caminho seguro está aberto diante de vós.
(Fonte : Prédicas de um Monárquico, Jacinto Ferreira 1957)
Blogue "Esquerda Monárquica"
sábado, 24 de abril de 2010
A ESTRATÉGIA REPUBLICANA
É notícia dos jornais, o Grão Mestre da Maçonaria, António Reis, viu-se obrigado a reconhecer que os ventos não correm de feição para a recém-baptizada «Ética Republicana».
Pois não. Até porque a dita menina bem comportada não passa de uma figuração, um conto de fadas com os escassos assanhados da República, em Portugal, pretendem, uma vez mais, enganar os portugueses.
Como? Enaltecendo os princípios e uma moral que jamais existiu. No papel e, muito menos, na prática de dez décadas.
Em termos mais concretos, a estratégia dos defensores da plutocracia e do status quo republicano, das suas mordomias, afinal, tentam reconstituir a história da «Ilda» com as seguintes cores deste confuso grafitti:
- De 1910 a 1926 viveram os portugueses todas as delícias paradisíacas de uma democracia parlamentar. Republicana, claro.
- Entre 1926 e 1974, não valeu. Foi a ominosa ditadura. Republicana? Obviamente não! Monárquica? Não falta a vontade de responder afirmativamente. Mas o despudor ainda não chegou a esse ponto.
- De 1974 aos nossos dias, o paraíso redivivo. Uma delícia. É Abril, a República em todo o seu explendor.
Tal mentira, é imperativo nacional seja desmentida. A República faz efectivamente cem anos, 48 dos quais vividos em autocracia. Antes, fora o caos político, as perseguições religiosas, o terror militar. E depois, é o que é, tudo aquilo de que nós portugueses nos revoltamos: a corrupção, a riqueza na mão de muito poucos, a burocracia e o clientelismo.
Sempre os monárquicos lutaram contra a situação republicana. Fazendo sempre notar os seus argumentos e a sua representatividade. Mormente na II República que, jamais deixaremos esquecer, significa metade do tempo de vida da «Ilda».
E, a própósito, um excerto da obra recente (2003) de Helena Matos - «Salazar - A Construção do Mito»:
« (...) em Junho de 1931, os dirigentes da Causa Monárquica mostram-se mais reservados (...) não excluindo a hipótese de apresentarem candidatos próprios nas próximas eleições. "(...) havemos de votar, naturalmente, em quem nos assegure a manutenção da integridade nacional e da ordem pública" - afirma Azevedo Coutinho ao jornalista do Diário de Lisboa. (...) há quem garanta "saber que os integralistas concorrerão às urnas". (...) estas linhas não são de modo algum tranquilizadoras para os homens da UN que contavam ir buscar apoios, entusiasmo e votos aos arraiais dos integralistas e dos monárquicos».
E, prosseguindo, a deixar claro que já então a «Ética» mancaria muito, fosse o caso de ser uma realidade:
«Mas é de Coimbra, cidade cuja importância política era inegável, que chegam as notícias mais graves. Elas são susceptíveis de abalar o próprio Governo, pois apresentam Lopes Mateus, o ministro do Interior, como patrocinador de um Partido Republicano das Direitas que esvaziaria a UN de sentido».
(Fonte: Centenário da República)
COMEMORAR O 25 DE ABRIL DE 1974
Desde há algum tempo a esta parte, se perfilam no panorama literário português algumas publicações e anúncios de eventos, destinados às comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril de 1974. Entre as publicações em causa, está um livro com uma entrevista de João Céu e Silva ao escritor António Lobo Antunes, onde a dado passo o entrevistado refere a sua experiência vivida na Ex-Província Ultramarina de Angola. As controversas narrativas do escritor sobre o modus operandi das Forças Militares Portuguesas, pretendem lançar literalmente no pântano a boa reputação de que estas sempre gozaram e que é seu apanágio. Creio ser legítimo, o direito (e dever) dos Militares Portugueses envolvidos nessas declarações, de se manifestarem com veemência contra tal afronta.
Também eu fui combatente em Angola, militar das Forças Armadas Portuguesas e apesar da pouca idade, pois ainda nem tinha 19 anos, me orgulho de ter combatido ao serviço da Pátria Portuguesa. Estive no centro da guerra, em locais como Nuambuangongo, Santa Eulália, Zala, Maria Fernanda, Quicabo, Quitexe, Região de Henrique de Carvalho, Santo António do Zaire, enclave de Cabinda e em tantos outros locais, onde a memória já me vai falhando − ou se recusando à lembrança −, na tentativa de os descrever a todos. Operei em conjunto com Rangers, Fuzileiros, Comandos, Pára-quedistas e demais tropas especiais e regulares que operavam nas regiões que descrevi. Colaborei e assisti a muitas “coisas”, umas boas outras menos boas. As nossas acções, enquanto intervenientes na guerra de guerrilha no Ultramar Português, não foram melhores nem piores do que em várias situações, outros militares de outras Nações, incluindo os nossos próprios “inimigos”, perpetraram contra as Forças que se lhes opunham. Colares enfeitados com orelhas do “inimigo” e cabeças dos “nossos” espetadas em paus, eram acções que de modo raro se observavam e como tal não indiciam um procedimento normal e enraizado entre as Forças Militares em campo. Tais atitudes anómalas existiram em ambos os lados, ocasionadas por comportamentos anormais de pessoas afectadas pelos acontecimentos vivenciais em ambos os lados. É completamente errado tomar uma pequena parte pelo todo, pois tal atitude apenas indicia uma manobra demagógica que pretende servir um determinado objectivo e não é de forma alguma inocente.
Foi o levantamento militar de 25 de Abril de 1974, uma lufada de ar fresco que criou nas populações a expectativa de que Portugal poderia vir a ser um país melhor do que era até então, nos aspectos político, económico e social. Passados 36 anos sobre essa data, é notório que nalguns pontos, até conseguimos estar pior – por exemplo segundo alguns analistas, o salário mínimo nacional, para ser equivalente aos valores praticados em Abril de 1974, deveria actualmente ser superior a quinhentos euros. Essa é a consciência que tem uma boa parte da população portuguesa, que por isso se sente enganada e se encontra desiludida e desmotivada, fruto dos devaneios praticados pelos partidos políticos e justificadamente descontente com a oligarquia partidária que então se instalou no poder durante este período.
A publicação que referi anteriormente parece pretender justificar aquilo a que é hábito chamar “descolonização” no período pós 25 de Abril, ou seja, a entrega das Ex-Províncias Ultramarinas Portuguesas a grupos de interesse político-económico internacionais, tendo o governo português se demitido das suas responsabilidades para com os Povos desses territórios, causando instabilidade e danos vários não só nesses novos países que despontavam mas também no território nacional, situação da qual ainda padecemos.
Posto isto, facilmente se depreende que pouco há a comemorar daquilo que nos trouxe a revolução do 25 de Abril, salvo algumas situações sociais que melhoraram, de facto. No entanto, existem inúmeros problemas de fundo que dificilmente serão resolvidos no actual quadro de regime político. Passo a referir alguns que entendo mais graves, sem no entanto fulanizar, embora sejam questões já tornadas públicas e portanto facilmente comprováveis.
•A questão dos governantes que após terminarem as suas funções no governo vão para a administração de instituições bancárias e empresas públicas e privadas em sectores que antes tutelavam, propiciam um natural ambiente de suspeição sobre eventuais casos de corrupção, alguns alegadamente acometidos, até por algumas decisões controversas por eles tomadas durante o cargo governativo. As situações são várias e deveras preocupantes.
•Os rendimentos anuais auferidos pelos detentores de cargos públicos, incluindo os deputados da Assembleia da República, não se encontram em consonância, nem de perto nem de longe, com os rendimentos das populações em geral. Acresce ainda as altas reformas que alguns políticos passam a ter direito, por escasso período de actividade ao serviço do Estado, em relação à situação comum das populações. Quanto às remunerações e prémios recebidos por administradores do sector público e também privado, chega a ser escandaloso. As mais altas remunerações auferidas por detentores de cargos públicos, é mais de cem vezes superior ao rendimento do trabalho de um trabalhador que ganhe mesmo acima do salário mínimo nacional. Há administradores que não sendo de topo, auferem rendimentos anuais superiores ao Presidente dos Estados Unidos da América, enquanto o salário mínimo em Portugal é dos mais baixos da Europa. Para além de rendimentos manifestamente avantajados, acrescem mais um sem número de mordomias que ofendem a generalidade dos portugueses. Aliás, recentemente surgiu uma polémica sobre um prémio que um administrador público irá receber num valor muito superior a um milhão de euros, o que lhe daria um rendimento anual bruto, relativo ao ano anterior, de cerca de três milhões de euros. Considerando tal prémio um exagero, entendo no entanto que só o rendimento sem o prémio já é uma afronta ao Povo português. Acresce ainda a velha questão dos Ex-Presidentes da República, que após terminarem o seu mandato, continuam a receber como rendimento anual e demais mordomias, um valor que está de todo desajustado ao país que somos.
•As anormais situações surgidas mesmo ao nível da Justiça e as alegadas pressões do executivo sobre vários órgãos da comunicação social – em que algumas, a julgar pela manifesta alteração editorial, terão sido efectivamente concretizadas –, entre outras igualmente gravosas, têm contribuído decisivamente para a descredibilização do aparelho de Estado. Aqui torna-se lícito reproduzir as máximas de um dos militares interventores no 25 de Abril: “… ao Estado a que isto chegou”; e “… não era nada disto que se pretendia”. Desde o infindável “Caso Casa Pia”, que envolve gradas figuras do sistema, até ao “Caso Face Oculta”, passando por outros tantos de igual calibre, deixam ruborizado qualquer mortal que tenha “um pingo de vergonha”. Mau grado provas e contra-provas, tudo continua na mesma, levando-nos a concluir que tudo não passa de manobras de diversão para manter ad eternus esta situação calamitosa que o governo e o Estado da Nação enferma. Em boa verdade, muitas vezes nem se consegue distinguir se as alegadas denúncias serão verdadeiras ou se apenas se trata de lutas intestinas de grupos partidistas rivais que disputam a primazia de continuar a controlar-nos e a sugar o erário público. Enfim, uma lástima. Em contra-corrente, (re)apareceu recentemente, por parte do partido político actualmente no poder, uma já velha e gasta acusação sobre o “negócio” da compra de submarinos, protagonizado por um elemento de outra facção político-partidária. Como no ponto anterior, não nos é possível ajuizar da veracidade de tal acusação, podendo apenas, à semelhança do caso anterior, considerar tal possibilidade. No entanto, o que é estranho – ou talvez não –, é o facto de esta acusação já por várias vezes ter surgido no passado, sem que tenha surgido uma solução definitiva. Esta recorrência, recorda-me aquele conto engraçado sobre um médico de aldeia, que indo de férias, deixou o filho, também ele médico, a cuidar do consultório. Quando o pai regressou, o filho não escondeu o seu contentamento por ter resolvido um caso clínico antigo, de um paciente que tinha constantes febres altas. Então, com a perspicácia de um clínico mais experimentado, ele descobriu que tal se devia a uma carraça alojada em sítio mais recôndito no corpo no pobre homem e a havia retirado. De imediato, retorna-lhe o pai com alguma rispidez: Pois! Extraíste a carraça, agora o homem já cá não volta e quero ver como te sustentas o resto do mês! A governação do país, não pode estar dependente dos interesses de grupo dos partidos políticos, nem estes podem por sua conveniência adiar resoluções que são obviamente do interesse nacional.•Uma outra questão que frequentemente se coloca e põe em causa a eficácia dos sucessivos governos da República, é o constante agravamento das condições de segurança pública. Por muito que queiram convencer os portugueses que a culpa é do excesso de banditismo, o que realmente falha é a falta de policiamento e de instrumentos legais que obstem à crescente onda de criminalidade. Dessa tarefa os governantes não se podem demitir, sendo essa uma das principais tarefas adstritas ao governo da Nação e que justifica a sua própria existência. A manipulação abusiva de dados estatísticos com o intuito de dar a impressão de que a situação está estável ou em regressão, tentando justificar o injustificável, não sossega as populações que sentem bem perto o problema.
Estas são algumas das questões que na minha perspectiva, ensombram as comemorações do golpe de Estado que derrubou o Estado Novo em Abril de 1974. Fazendo o ponto da situação, na actual sociedade portuguesa não se vislumbram grandes benefícios, quer na componente social, quer na componente política, e muito menos na económica, em relação à segunda República, para além de alguns benefícios sociais a que já aludi anteriormente e mesmo estes se revelam manifestamente insuficientes e desajustados ao espaço europeu no qual estamos inseridos.
Com o actual sistema político, apenas os partidos políticos beneficiaram, impondo-se aos portugueses num regime de rotativismo ou alternância na governação, na pretensão de se perpetuarem no poder. É por demais evidente que o jogo político está viciado e esta é uma situação da qual os portugueses não colhem qualquer benefício. Creio que o maior erro do movimento de Abril de 1974, mau grado a justa expectativa que criou nas populações, foi não ter conseguido alterar o tipo de regime político, terminando com a República que nos tem dado má prova e instaurando a Monarquia. A instrumentalização das massas levou à efectivação de um regime de excepção, oligárquico, em que apenas os partidistas logram.
Luiz Andrino
(Fonte: Luiz Andrino blog)
FRANCISCO SOUSA TAVARES (1920-1993) - UM MONÁRQUICO NO 25 DE ABRIL
Advogado, jornalista e político. Monárquico democrata, foi um activo opositor ao regime salazarista. Foi um dos contactos civis dos militares que em 1959 intentaram contra o regime naquela que ficou conhecida como Revolta da Sé . No dia 25 de Abril de 1974 o país conheceu-o através de imagens que ficaram célebres: do alto de uma guarita e através de um megafone foi primeiro político a falar à população que no Largo do Carmo, acompanhando as operações militares comandadas por Salgueiro Maia , aguardava a rendição de Marcello Caetano . Depois da revolução de 25 de Abril foi deputado pelo Partido Socialista e mais tarde pelo Partido Social Democrata. Em 1983, ocupou o cargo de Ministro da Qualidade de Vida no IX Governo Constitucional do Bloco Central. Foi casado com a poetisa Sophia de Mello Breyner.(Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril)
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